segunda-feira, 22 de junho de 2026 12:12
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Edital milionário revela articulação nas sombras

Valquiria-Cunha-Ascom-DetranDF

 

Certame para Semáforos inteligentes e fiscalização eletrônica de avanços ao mesmo tempo, colocam quase R$ 290 milhões em disputa

 

Em Brasília, o sinal amarelo já foi aceso. E não foi pelo sistema semafórico que o Detran pretende modernizar. Foi pelo volume de dinheiro, pelos personagens que gravitam em torno da disputa e pelas suspeitas que começam a surgir antes mesmo da abertura das propostas.

São R$ 194 milhões distribuídos em dois pregões que, oficialmente, servirão para modernizar a mobilidade urbana do Distrito Federal. Na prática, transformaram-se em objeto de intensa movimentação nos bastidores políticos e empresariais.

O Pregão nº 90013/2026 prevê R$ 118,5 milhões para manutenção e modernização do sistema semafórico. O Pregão nº 90015/2026 reserva outros R$ 75,8 milhões para fiscalização eletrônica por meio do sistema REIT III. Separados no papel. Interligados na prática. Quem controla um lado da engrenagem acaba influenciando diretamente o outro.

É justamente aí que o mercado começou a desconfiar.

Empresas especializadas em mobilidade urbana, fiscalização eletrônica e cidades inteligentes passaram a examinar os editais com lupa. O resultado foi imediato. Surgiram questionamentos técnicos, pedidos de esclarecimento e estudos para impugnações. Nos bastidores, a palavra mais repetida não é tecnologia. É direcionamento.

Concorrentes afirmam identificar exigências consideradas incomuns, critérios que poderiam restringir a competição e dispositivos que, segundo eles, acabam afunilando o universo de possíveis participantes. Nada disso foi reconhecido oficialmente pelo Detran. Mas a simples existência de questionamentos já foi suficiente para colocar o certame sob observação permanente do mercado.

O clima ficou ainda mais pesado quando começaram a circular os nomes dos grupos empresariais apontados como favoritos.

Entre eles aparecem a Sinales Sinalização Espírito Santo Ltda. e a Atman Tecnologia Ltda., empresas ligadas à família Martinelli. Nos corredores do setor, adversários afirmam que ambas integram uma estrutura empresarial que há anos acumula presença em contratos públicos ligados à gestão de trânsito em diversos estados, e que recentemente estavam passando por graves dificuldades financeiras.

As suspeitas do mercado ligam pessoas influentes pelos modus operandi, e chegam ao presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, que comanda DETRANs em nove estados e no Distrito Federal. Empresários e operadores do mercado atribuem ao grupo influência sobre a disputa e apontam como articulador Luciano Ferreira Cavalcante, dirigente do partido União Brasil em Alagoas. São informações de bastidor, que circulam com insistência suficiente para alimentar desconfianças.

Como se não bastasse, um episódio ocorrido dentro do próprio Detran adicionou mais combustível ao ambiente de suspeitas. Hugo Fernando Figueiredo Santos, apontado como ligado ao grupo político do presidente do União Brasil no Distrito Federal, Manoel Coelho Arruda Júnior, foi exonerado. A saída gerou interpretações imediatas. Para alguns observadores, trata-se de mero ajuste administrativo. Para outros, de mais um movimento na guerra silenciosa travada nos bastidores dos contratos milionários.

O fato é que os editais ainda nem foram julgados e o ambiente já está contaminado por disputas empresariais, movimentações políticas e acusações veladas.

O Detran sustenta que os procedimentos seguem rigorosamente a legislação e que os editais foram submetidos aos controles institucionais exigidos. Formalmente, nada há que impeça o andamento dos certames.

Mas também é verdade que os maiores escândalos envolvendo contratos públicos no Brasil nasceram exatamente assim: cercados por absoluta legalidade formal e por uma coleção de coincidências que, vistas isoladamente, pareciam insignificantes.

O mercado agora aguarda a abertura dos envelopes digitais. Será nesse momento que os nomes aparecerão oficialmente, abocanhando contratos públicos bilionários.

Até lá, o sinal permanece amarelo.

E em Brasília, quando o assunto envolve mais de R$ 200 milhões, amarelo costuma ser apenas a cor que antecede o vermelho.

 

Por Mino Pedrosa – Fatos On-line