Hiperconectividade e inteligência artificial ampliam debate sobre saúde mental na era digital

Foto de Timothy Hales Bennett na Unsplash

 

O mundo ultrapassou a marca de 6 bilhões de usuários de internet, enquanto as redes sociais já concentram cerca de 5,8 bilhões de perfis ativos. Paralelamente ao crescimento da conectividade, sistemas baseados em algoritmos e inteligência artificial (IA) passaram a desempenhar um papel cada vez mais presente na rotina das pessoas, influenciando a forma como conteúdos são consumidos, informações são distribuídas e relações são construídas no ambiente digital.

Segundo dados do relatório Digital 2026, elaborado pela DataReportal, mais de 2,4 bilhões de pessoas já utilizam regularmente ferramentas de inteligência artificial generativa. No Brasil, o cenário acompanha essa transformação: o país encerrou o último ano com aproximadamente 185 milhões de usuários de internet, o equivalente a 86,9% da população, além de cerca de 150 milhões de identidades ativas em redes sociais.

O avanço tecnológico, no entanto, também tem despertado preocupações entre especialistas das áreas de saúde, educação e tecnologia. Entre os comportamentos que passaram a ser observados estão a dificuldade de permanecer longe do celular, a necessidade constante de verificar notificações e a sensação de desconforto quando o usuário se desconecta das plataformas digitais — fenômeno conhecido como ansiedade de desconexão.

Para o professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG), Celso Camilo, doutor em Inteligência Artificial, o debate vai além do tempo de uso das telas e envolve a forma como as plataformas são desenvolvidas para manter a atenção dos usuários.

“Hoje existe uma assimetria muito grande entre o poder tecnológico de engajamento e a capacidade das pessoas de compreenderem o processo e os impactos desse uso equivocado”, afirma.

Segundo o pesquisador, a dependência digital deixou de ser uma questão exclusivamente comportamental e passou a representar um desafio relacionado à saúde pública, à educação e ao próprio desenvolvimento tecnológico.

Especialistas apontam que o excesso de estímulos digitais pode estar associado a sintomas como dificuldade de concentração, redução da produtividade, alterações de humor, piora da qualidade do sono e impactos nos relacionamentos pessoais. Embora esses fatores possam ter diferentes causas, estudos indicam que a hiperconectividade aparece frequentemente entre os elementos relacionados ao problema.

Grande parte desse cenário é influenciada pelos algoritmos e sistemas de inteligência artificial responsáveis por selecionar conteúdos, recomendar vídeos, organizar publicações e personalizar a experiência dos usuários. O objetivo dessas ferramentas é aumentar a relevância das plataformas, mas o resultado também pode ser um ambiente de estímulos constantes e difícil de abandonar.

“Vivemos em um mundo figital, a integração do físico com o digital, e isso cria desafios importantes para as pessoas. Não existe mais uma separação clara entre esses mundos; a nossa vida acontece nas duas dimensões ao mesmo tempo”, explica Camilo.

Com o objetivo de ampliar esse debate, pesquisadores das áreas de inteligência artificial, psiquiatria, educação e comportamento humano criaram o projeto Mente Figital. A iniciativa busca aproximar o conhecimento científico do público por meio de conteúdos educativos sobre os impactos da hiperconectividade na saúde mental.

De acordo com os idealizadores, a proposta tem foco na prevenção, conscientização e acolhimento de pessoas que podem estar desenvolvendo sinais de dependência digital ou desgaste psicológico relacionado ao uso excessivo da tecnologia.

“O principal objetivo é prevenção e conscientização, mas o projeto também busca acolhimento e apoio. Muitas pessoas ainda não percebem que estão entrando em um quadro de dependência digital ou desgaste psicológico associado ao uso excessivo de tecnologia”, destaca o pesquisador.

A primeira etapa do projeto prevê a produção de um podcast com especialistas de diferentes áreas para discutir temas ligados à atenção, bem-estar e saúde mental no contexto digital. Em uma fase posterior, o grupo pretende desenvolver ferramentas de autoavaliação que auxiliem usuários a identificar comportamentos de risco.

Entre os sinais observados pelos pesquisadores estão a perda de controle sobre o tempo gasto online, alterações de humor relacionadas ao uso de dispositivos, prejuízos ao sono, queda na produtividade, ansiedade ao ficar desconectado e dificuldades nas relações pessoais.

Para os especialistas envolvidos na iniciativa, o avanço da inteligência artificial torna indispensável a reflexão sobre o uso consciente das tecnologias. A proposta, contudo, não é tratar a inovação como uma ameaça, mas compreender seus efeitos sobre o comportamento humano e estimular uma convivência mais equilibrada em uma sociedade cada vez mais conectada.