
Pesquisa aposta em agricultura de precisão, inovação tecnológica e múltiplas safras para reduzir dependência de importações e fortalecer a indústria nacional
Pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) lideram um projeto que pretende transformar a cadeia produtiva do lúpulo no Brasil e posicionar o país como referência global entre regiões de clima tropical na produção da matéria-prima.
O lúpulo é uma planta fundamental para a fabricação de cerveja, sendo responsável pelo amargor, aroma e estabilidade da bebida. Além do setor cervejeiro, os compostos naturais extraídos da planta também possuem aplicações nas indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e de etanol, ampliando seu potencial econômico.
Atualmente, a maior parte do lúpulo consumido no Brasil é importada de países de clima frio, onde a planta possui apenas uma safra anual devido às condições de temperatura e luminosidade. O objetivo do projeto brasileiro é adaptar o cultivo ao ambiente tropical, seguindo estratégia semelhante à que consolidou culturas como soja e trigo no país.
A iniciativa é desenvolvida no Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança (Casulo), vinculado ao Programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ.
Segundo a coordenadora do projeto, Amanda Xavier, a proposta envolve toda a estruturação de uma nova cadeia produtiva nacional.
“Estamos falando de estruturar uma nova cadeia produtiva no país, integrando desde o cultivo com agricultura de precisão até o processamento industrial e o controle de qualidade em laboratório próprio”, afirmou.
O Casulo mantém parceria com a Associação Brasileira do Lúpulo (Aprolúpulo), responsável pela elaboração do Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, publicado em março de 2026. O documento reúne informações estratégicas para orientar pesquisas, investimentos e políticas públicas voltadas ao setor.
O projeto também prevê a produção de extratos de lúpulo por meio de tecnologia de extração com dióxido de carbono (CO₂), permitindo a obtenção de insumos padronizados e de alto valor agregado para diferentes segmentos industriais.
“Com agricultura de precisão e controle laboratorial, podemos oferecer extratos padronizados que atendam tanto a cervejarias artesanais quanto à indústria farmacêutica”, destacou Amanda Xavier.
A proposta prevê ainda a escolha de uma região estratégica para concentrar investimentos, infraestrutura, pesquisa e inovação, criando um ecossistema capaz de conectar produção agrícola, indústria e mercado consumidor.
Os pesquisadores apontam que o clima brasileiro pode se tornar uma vantagem competitiva. Com técnicas de manejo adequadas e suplementação luminosa, seria possível alcançar até 2,5 safras por ano, superando o modelo tradicional de países produtores de clima frio.
Em 2024, a produção mundial de lúpulo chegou a aproximadamente 114 mil toneladas. No mesmo período, o Brasil produziu apenas 81 toneladas, apesar de registrar demanda interna de cerca de 7 mil toneladas, mercado estimado em R$ 878 milhões anuais.
Os dados mostram que o país produz apenas 1,11% do lúpulo que consome, cenário que reforça a dependência das importações e evidencia o potencial de expansão da cadeia produtiva nacional.
Para os pesquisadores, o desenvolvimento da produção brasileira pode acelerar a substituição de importações, estimular a geração de empregos qualificados e inserir o país em um mercado global de maior valor agregado.








