segunda-feira, 15 de junho de 2026 13:13
Home Notícias Câmara dos Deputados aprova projeto de lei que combate “adultização” de crianças...

Câmara dos Deputados aprova projeto de lei que combate “adultização” de crianças na internet

Foto de Nathana Rebouças na Unsplash

Texto prevê regras rigorosas para plataformas digitais e cria autoridade nacional para fiscalização. Proposta segue para o Senado

Brasília – Em uma votação simbólica realizada na noite desta quarta-feira (20), o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei (PL) 2628/2022, que estabelece diretrizes para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Conhecida como a proposta contra a “adultização” de crianças, a medida visa prevenir crimes e abusos online envolvendo menores de idade.

De autoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e relatado na Câmara pelo deputado Jadyel Alencar (Republicanos-PI), o projeto recebeu apoio expressivo de centenas de organizações da sociedade civil e parlamentares de diferentes espectros políticos. Como o texto aprovado sofreu alterações em relação à versão original do Senado, ele será novamente submetido à apreciação dos senadores.

Entre os principais pontos do texto substitutivo aprovado está a criação de uma autoridade nacional autônoma, que ficará responsável pela fiscalização, regulamentação e aplicação das sanções previstas na nova legislação.

Composto por 16 capítulos e 41 artigos, o projeto impõe obrigações às plataformas digitais para que adotem medidas “razoáveis” de prevenção a riscos relacionados à exposição de crianças e adolescentes a conteúdos como pornografia, violência, assédio, jogos de azar, e práticas publicitárias enganosas ou predatórias.

Além disso, o texto determina a necessidade de verificação mais rigorosa da idade dos usuários, indo além do modelo atual de autodeclaração, e estabelece diretrizes para o controle parental, o uso de publicidade, o tratamento de dados pessoais e a atuação de jogos eletrônicos.

Em caso de descumprimento, os infratores estarão sujeitos a advertências, multas de até R$ 50 milhões, suspensão temporária ou até proibição definitiva das atividades no Brasil.

Amplo apoio e mudanças estratégicas

Apesar de inicialmente enfrentar resistência da oposição, o projeto ganhou apoio após o relator acolher sugestões como a criação da agência reguladora autônoma e limitar quem pode solicitar a remoção de conteúdos. Com isso, o Partido Liberal (PL), principal legenda da oposição, retirou seus destaques e permitiu a aprovação do texto sem obstáculos.

“O texto foi aperfeiçoado. Do projeto, foram retiradas todas as possíveis censuras. A Câmara dos Deputados sempre vai lutar para que nossas crianças não sejam sensualizadas”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da legenda.

Já o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), celebrou a aprovação: “Nossas crianças e adolescentes irão reconhecer o trabalho do Parlamento em buscar um ambiente seguro nas redes sociais”.

Remoção imediata e proteção legal

Um dos pontos centrais do PL é a remoção imediata de conteúdos ofensivos, sem necessidade de ordem judicial, desde que haja notificação por parte da vítima, seus representantes legais, o Ministério Público ou entidades de proteção à infância.

Especialistas apontam que o projeto fortalece e atualiza direitos já previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas que hoje não são devidamente aplicados nas redes sociais.

Segundo a deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP), o projeto protege a liberdade de expressão ao delimitar claramente os tipos de conteúdos passíveis de remoção imediata, como exploração sexual, incentivo à automutilação e golpes. “Opiniões, críticas e reportagens não se aplicam. O projeto é uma resposta histórica à exposição indevida de crianças no ambiente digital”, defendeu.

Comoção nacional acelerou debate

O debate sobre o tema ganhou grande repercussão após o humorista Felca (Felipe Bressanim Pereira) publicar, no dia 9 de agosto, um vídeo denunciando o influenciador Hytalo Santos por exploração de menores. A denúncia, que ultrapassa 50 milhões de visualizações, provocou comoção nacional e impulsionou o avanço do PL no Congresso.

Para o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), a aprovação do projeto é um marco: “Estamos protegendo uma geração inteira. Hoje mostramos que o bem comum está acima das divergências partidárias”.

Agora, a proposta segue para nova análise no Senado, onde os parlamentares decidirão se ratificam ou não as alterações feitas pela Câmara. Se aprovada, a nova lei representará um importante passo na regulação do ambiente digital em favor da infância e juventude brasileiras.