
TSE registra aumento de mais de 11 vezes nos processos em quatro anos; mulheres foram vítimas de 52,2% dos casos de violência política identificados durante a campanha do primeiro turno.
A violência política contra mulheres aumentou no Brasil durante o ano eleitoral de 2026, segundo levantamentos de órgãos públicos e organizações da sociedade civil. Os dados apontam ameaças, agressões, ataques machistas e racistas contra mulheres que disputam ou ocupam cargos públicos.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de processos por violência política de gênero passou de 15, em 2022, para 177 até setembro de 2026 — um crescimento de mais de 11 vezes.
O levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 casos de violência política durante a campanha do primeiro turno, encerrada em 4 de outubro. Isso representa uma ocorrência a cada nove horas. Desse total, 70 casos, ou 52,2%, tiveram mulheres como vítimas.
Entre os 102 episódios direcionados exclusivamente a pessoas candidatas, 60 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 58,8%. Embora representem cerca de um terço das candidaturas, elas foram alvo de mais da metade dos episódios registrados nesse grupo.
Os dados foram divulgados em outubro, mês em que é lembrado o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, celebrado em 10 de outubro. A data remete à mobilização de mulheres realizada em 1980, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, contra o aumento dos crimes de gênero no país.
Denúncias ultrapassam 1,5 mil
A Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres entre janeiro e agosto de 2026. Os relatos correspondem a 1.581 violações identificadas, já que uma mesma denúncia pode incluir diferentes formas de violência.
Mulheres pretas e pardas concentram a maior parte dos registros: foram 842 denúncias, mais de 53% do total. Outras 590 denúncias, equivalentes a 37,72%, envolveram mulheres brancas. Os 132 registros restantes, ou 8,44%, referem-se a mulheres de outros grupos raciais.
As ocorrências incluem ameaças de morte e estupro, discriminação, difamação, ataques racistas e transfóbicos, divulgação de informações falsas e tentativas de desqualificar a atuação de mulheres em espaços de poder.
No fim de setembro, organizações da sociedade civil entregaram ao TSE um documento com denúncias de agressões contra candidatas nas eleições de 2026. Os relatos incluem violência física e verbal, além de ameaças de morte e violência sexual.
Deputada eleita relata ameaças
Um dos casos recentes envolve Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, eleita deputada federal. Ela denunciou à Polícia Civil ameaças de morte e violência sexual recebidas durante a campanha.
Segundo a parlamentar, as mensagens continham ataques machistas e racistas, além de ameaças de estupro. Dados pessoais, como endereço residencial, telefone e documentos, também teriam sido expostos. Diante da situação, o partido contratou segurança armada para protegê-la.
Ana Elisa recebeu 524.219 votos e foi a segunda candidata mais votada para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais, atrás de Nikolas Ferreira (PL). Ela também se tornou a mulher mais votada da história do estado para o cargo e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil.
Violência reflete desigualdades estruturais
A secretária nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, relaciona a violência política de gênero à misoginia, à violência doméstica e ao feminicídio.
“É assustador porque as violências políticas são, no fundo, questões estruturais, sejam elas no limite da ameaça à vida, sejam essas violências cotidianas e veladas que tentam desestimular a participação da mulher na política”, afirmou.
A violência política contra mulheres também já se manifestou em episódios de grande repercussão nacional. Entre eles estão o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018; a importunação sexual sofrida pela então deputada estadual Isa Penna durante uma sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2020; e as declarações ofensivas dirigidas à deputada federal Maria do Rosário em 2014.
Também há relatos de ameaças contra parlamentares que exigem medidas de proteção, como a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), que já esteve sob escolta em razão de ameaças.
Como denunciar
Mulheres vítimas de violência política e pessoas que tenham conhecimento de ocorrências desse tipo podem procurar diferentes canais institucionais.
- Ligue 180: atendimento gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 180 ou pelo WhatsApp (61) 9610-0180.
- Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público: recebe manifestações relacionadas à violência contra mulheres.
- Procuradoria-Geral Eleitoral: denúncias podem ser encaminhadas pela Sala de Atendimento ao Cidadão do Ministério Público Federal.
- Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça: canal para manifestações relacionadas aos direitos das mulheres.
- Polícia Federal: denúncias podem ser feitas pelo canal Comunica PF ou presencialmente nas delegacias.
- Defensoria Pública da União: o Grupo de Trabalho Mulheres oferece assistência e orientação jurídica.
Em situações de emergência, quando houver risco imediato à integridade física, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.









