
Candidata do PSDB ao Buriti declara apoio à petista para o Senado e protagoniza uma das cenas mais curiosas da eleição no DF
A reta final das eleições de 2026 no Distrito Federal ganhou um daqueles capítulos que parecem ter sido escritos por um roteirista com excesso de criatividade. Paula Belmonte (PSDB), candidata ao Governo do Distrito Federal, decidiu entrar em cena para declarar apoio a Erika Kokay (PT) na disputa pelo Senado.
O anúncio aconteceu na sexta-feira (2), a apenas dois dias do primeiro turno, por meio de um vídeo publicado nas redes sociais. Paula elogiou a atuação de Erika durante o período em que as duas estiveram na Câmara dos Deputados e destacou a experiência parlamentar da petista.
Até aí, nada de extraordinário. A democracia permite que adversários reconheçam qualidades uns nos outros.
Mas o detalhe que transformou o episódio em assunto político foi o histórico recente da própria campanha.
Durante o debate da TV Globo, realizado em 29 de setembro, Paula havia adotado um discurso crítico ao PT. Agora, poucos dias depois, apareceu ao lado de Erika, defendendo que o eleitor reconheça a atuação da candidata petista ao Senado.
É aquela velha história da política brasileira: ontem era disputa; hoje é reconhecimento; amanhã o eleitor que faça as contas.
A tucana que resolveu atravessar a ponte

No vídeo, Paula fez questão de explicar que diferenças políticas não impedem o reconhecimento de uma trajetória. Segundo ela, Erika sempre teve presença no plenário da Câmara, acompanhava os debates e analisava os projetos que chegavam à Casa.
“O que a gente precisa é ter gente com competência e compromisso”, afirmou Paula.
Também destacou que Erika chegava cedo ao plenário e acompanhava os assuntos debatidos no Congresso. O elogio foi direto e público.
Erika, por sua vez, agradeceu.
E foi justamente aí que a cena ganhou contornos ainda mais curiosos: uma candidata tucana ao Palácio do Buriti fazendo campanha para uma candidata petista ao Senado.
Na política, como se sabe, até o GPS pode recalcular a rota quando faltam poucos quilômetros para a eleição.
Do confronto ao “reconhecimento”
O episódio chama atenção porque acontece justamente na reta final da campanha, quando os discursos costumam ficar mais definidos e os candidatos procuram deixar claras suas diferenças.
Paula, entretanto, optou por separar a disputa pelo Governo do DF da escolha para o Senado e declarou publicamente sua preferência por Erika.
A própria Erika respondeu dizendo que a política não deve ser feita de inimigos e que é possível estar em campos diferentes e reconhecer trajetórias.
É uma posição legítima. Mas, eleitoralmente, a imagem é curiosa.
De um lado, Paula disputa o Buriti. Do outro, Erika concorre ao Senado e integra o campo político de Leandro Grass, adversário de Paula na corrida pelo governo.
Ou seja: a matemática eleitoral ganhou uma variável que não estava exatamente na conta.
E o episódio envolvendo Arruda?
A campanha de Paula também passou por outro movimento político relevante: a tentativa de dialogar com o eleitorado ligado a José Roberto Arruda.
Arruda, que disputava o Governo do DF pelo PSD, teve o registro de candidatura indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral. A decisão retirou seu nome da disputa e alterou o cenário eleitoral do primeiro turno.
Com a saída de Arruda da corrida, diferentes candidaturas passaram a disputar o eleitorado que acompanhava o ex-governador.
O problema é que voto não vem com escritura pública. Não existe documento dizendo que determinado eleitor pertence a determinado candidato.
E foi justamente nesse terreno que a campanha de Paula passou a tentar ampliar sua presença.
A eleição chega à última curva
As pesquisas recentes colocam Paula em terceiro lugar na corrida pelo Palácio do Buriti. No Datafolha divulgado em 1º de outubro, ela apareceu com 10% dos votos válidos, atrás de Celina Leão (PP), com 53%, e Leandro Grass (PT), com 26%.
Na disputa pelo Senado, Erika Kokay aparece entre os nomes competitivos. O Datafolha divulgado em 1º de outubro registrou a petista com 13% das intenções de voto.
O que ninguém pode afirmar antecipadamente é qual será o efeito eleitoral do apoio declarado por Paula. Isso dependerá da reação dos eleitores e, sobretudo, das urnas.
Mas uma coisa já entrou para o álbum das cenas curiosas da eleição brasiliense de 2026.
Paula Belmonte, candidata do PSDB ao Governo do Distrito Federal, chegou à reta final pedindo que o eleitor olhasse com atenção para Erika Kokay, candidata do PT ao Senado.
Se a política é a arte do possível, Brasília acaba de oferecer mais uma demonstração.
Porque, na eleição do DF, aparentemente até quem passou a campanha apontando o adversário pode terminar a corrida dizendo: “mas essa aqui eu recomendo”.









