segunda-feira, 28 de setembro de 2026 01:01
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Proibição das bets traz alívio a apostadores que tentam reconstruir a vida

Foto de Niek Doup na Unsplash

 

Kaio perdeu carro, casa e emprego por causa das dívidas de jogo e hoje faz tratamento em um Caps; especialistas alertam para os impactos da dependência e os riscos à saúde mental.

“Um grande alívio.” Foi assim que Kaio*, 42 anos, definiu o sentimento ao saber, na última sexta-feira (25), que as operações das empresas de apostas on-line, as bets, foram proibidas no Brasil. A decisão foi anunciada pelo governo por meio de medida provisória.

Kaio tenta reconstruir a vida depois de perder o carro, a casa e o emprego em consequência das dívidas acumuladas com os jogos. Atualmente, mora sozinho em um dormitório em uma cidade do interior de Goiás. Por medo de sofrer represálias relacionadas a dívidas contraídas com agiotas, decidiu se afastar da família.

Ele reconhece que, nos últimos seis anos, a dependência em jogos transformou sua vida. Neste ano, procurou atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde passou a participar de grupos terapêuticos e consultas médicas. Atualmente, toma três medicamentos por dia.

Bets foram aprovadas em 2018

A Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25), revogou as regras sobre apostas previstas no capítulo 5 da Lei 13.756, aprovada em dezembro de 2018, durante o governo Michel Temer.

Apesar da aprovação da legislação em 2018, as bets só foram regulamentadas em dezembro de 2023. Durante esse período, as plataformas funcionaram no país sem o conjunto de regras que passou a disciplinar o setor.

A regulamentação estabeleceu medidas como a exigência de avisos de desestímulo ao jogo e alertas sobre os riscos e malefícios das apostas nas campanhas publicitárias das empresas.

Vulnerabilidade e publicidade

Para a psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais suscetíveis ao desenvolvimento da dependência em jogos.

Segundo a especialista, parte dessas pessoas foi exposta a publicidade que associava as apostas à possibilidade de obter renda ou retornos rápidos.

“São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso”, afirmou.

R$ 62,5 bilhões perdidos em apostas

Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, considerando a diferença entre o dinheiro apostado e o valor devolvido em prêmios.

O montante equivale a uma média de aproximadamente R$ 4,7 bilhões por mês no período analisado. As perdas representaram 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.

No mesmo intervalo, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix. Os dados foram divulgados no Boletim Fiscal dos Estados, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).

Regras e fiscalização

Entre as regras estabelecidas para as bets estava a obrigação de bloquear o acesso de usuários identificados como jogadores compulsivos. Segundo o advogado Júlio Leone, porém, essa medida não era efetivamente cumprida.

Em vez disso, de acordo com o advogado, jogadores continuavam recebendo bônus e anúncios das plataformas.

Kaio relata ter vivenciado situação semelhante. “O celular não parava de trazer mensagens”, conta.

Os impactos também alcançaram adolescentes. Uma pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas mostrou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio afirmaram ter feito apostas on-line no último ano.

O levantamento apontou ainda que as apostas começavam cedo. Entre os estudantes de 11 anos, pelo menos 9,5% disseram já ter apostado.

Jovens estão mais vulneráveis

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes apresentam maior vulnerabilidade aos estímulos relacionados às apostas porque o cérebro ainda está em processo de desenvolvimento.

As regiões relacionadas à sensação de prazer e à dopamina funcionam de maneira intensa, enquanto as áreas responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos só terminam de amadurecer na faixa dos 20 e poucos anos.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirma.

Dependência pode aumentar risco de suicídio

Profissionais de saúde também alertam para os impactos da dependência em apostas sobre a saúde mental. Entre os sinais identificados estão desesperança, sensação de não haver saída, afastamento de familiares e amigos, aumento do consumo de álcool e mudanças importantes de comportamento.

Segundo Katia Branco, manifestações relacionadas à morte ou à vontade de não continuar vivendo devem ser levadas a sério e resultar na busca por atendimento especializado.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, afirma.

A psiquiatra relata que alguns pacientes chegam aos serviços de saúde extremamente ansiosos diante dos prejuízos financeiros provocados pelas apostas. Em situações mais graves, podem surgir pensamentos de morte e ideação suicida.

Tratamento é necessário

O neurocirurgião Orlando Maia afirma que pessoas com dependência em jogos podem incorporar as apostas à rotina como uma forma de buscar recompensa. Em muitos casos, porém, o próprio jogador não reconhece a existência do problema.

“Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar”, explica.

A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Caps no Distrito Federal, também recomenda que dependentes e familiares procurem atendimento profissional.

“Eu trabalho em Caps. Chegam para nós pessoas que tiveram pensamentos e fizeram, por exemplo, tentativa de autoextermínio. É um pedido de socorro desesperado, como se falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento”, afirma.

Para os especialistas, um dos fatores que agravou o problema foi a facilidade de acesso às apostas, que ficaram disponíveis praticamente 24 horas por dia pelo celular.

“É um cassino dentro do seu bolso”, resume Luiz Carlos*, 71 anos, integrante do Jogadores Anônimos. “Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais.”

SUS amplia atendimento

Em agosto, diante do aumento dos problemas de saúde relacionados à dependência em jogos, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou a capacidade de teleatendimento para pessoas que enfrentam problemas associados às apostas on-line.

Após o anúncio da proibição das bets, o Ministério da Saúde informou que também pretende ampliar as ações de busca ativa de apostadores contumazes, oferecendo acompanhamento e tratamento quando necessário.

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, as ações utilizarão informações compartilhadas por órgãos como os ministérios da Fazenda e da Segurança e a Receita Federal.

Para pessoas como Kaio, que já enfrentam as consequências financeiras, familiares e psicológicas da dependência, a proibição das plataformas representa uma mudança no cenário. A reconstrução da vida, porém, continua dependendo também de acompanhamento e tratamento para o transtorno relacionado aos jogos.

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