segunda-feira, 24 de agosto de 2026 18:18
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Uso de medicamento cresce após atualização de protocolo para esclerose múltipla

Foto de Ksenia Yakovleva na Unsplash

Estudo do Einstein analisou mais de 1,7 milhão de registros e aponta aumento do acesso a terapias de alta eficácia e redução do uso de medicamentos injetáveis de menor eficácia

Uma análise realizada por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita identificou mudanças importantes no tratamento da esclerose múltipla pelo Sistema Único de Saúde (SUS) após a atualização das diretrizes nacionais para a doença. Entre 2019 e 2023, a distribuição de natalizumabe, medicamento indicado para pacientes com formas mais agressivas da esclerose múltipla, aumentou 44,5% em todo o país.

No mesmo período, houve crescimento na utilização de outras terapias de alta eficácia e redução do uso de medicamentos injetáveis considerados de menor eficácia. O número de pacientes em tratamento pelo SUS também aumentou 25,9%, indicando ampliação do acesso ao cuidado especializado.

O estudo avaliou os impactos da atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para esclerose múltipla, implementada em 2021. Os pesquisadores analisaram mais de 1,7 milhão de registros de distribuição de medicamentos. Os resultados foram publicados na revista científica Multiple Sclerosis and Related Disorders.

Mudanças no tratamento

A atualização do PCDT, publicada pelo Ministério da Saúde, incorporou novas evidências científicas ao tratamento da esclerose múltipla no SUS. Entre as principais mudanças, passou a recomendar o natalizumabe como primeira opção terapêutica para pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente de alta atividade, inclusive sem a necessidade de falha prévia de outros tratamentos.

O estudo apontou que a mudança no padrão terapêutico após a atualização do protocolo, com a migração de pacientes para terapias de alta eficácia, aumentou 82%. Em contrapartida, as trocas entre medicamentos de eficácia semelhante diminuíram 54%, indicando maior adoção de estratégias terapêuticas alinhadas às evidências científicas mais recentes.

A velocidade de incorporação das terapias de alta eficácia, no entanto, variou entre os estados brasileiros. Segundo a análise, a adoção foi mais rápida em regiões com maior concentração de neurologistas e centros especializados no atendimento a pacientes com esclerose múltipla.

Impacto para os pacientes

A esclerose múltipla é uma doença neurológica autoimune e crônica na qual o sistema imunológico passa a atacar estruturas do sistema nervoso central, comprometendo a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo.

Embora não tenha cura, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem reduzir a frequência dos surtos, retardar a progressão da incapacidade e preservar a qualidade de vida dos pacientes.

Segundo a neurologista, coordenadora do Instituto do Cérebro do Einstein e uma das autoras do estudo, Lívia Almeida Dutra, os resultados demonstram o potencial das políticas públicas baseadas em evidências científicas para modificar a prática clínica.

“Quando as diretrizes passam a incorporar terapias mais eficazes, aumentam as oportunidades de os pacientes receberem tratamentos capazes de controlar melhor a atividade da doença e reduzir o risco de incapacidade ao longo do tempo”, afirmou.

Para a especialista, os dados também permitem identificar experiências bem-sucedidas e adaptá-las a diferentes realidades. O fortalecimento da rede de atendimento especializado, segundo ela, é fundamental para ampliar o acesso às melhores opções terapêuticas em todas as regiões do país.

Dados orientam políticas públicas

Para os pesquisadores, o acompanhamento de grandes bases de dados é importante para avaliar se as políticas públicas estão produzindo os resultados esperados e orientar investimentos em infraestrutura, serviços especializados e capacitação profissional.

“O acompanhamento de grandes bases de dados é fundamental para verificar se uma política pública está produzindo os resultados esperados, além de orientar investimentos em infraestrutura, serviços especializados e capacitação profissional. Evidências do mundo real ajudam a qualificar a tomada de decisão e a construir um sistema de saúde mais eficiente e centrado nas necessidades dos pacientes”, afirmou Lucas Hernandes Correa, gerente do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein Hospital Israelita e um dos autores do estudo.

A pesquisa contou com a participação da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Registro de Doenças Neurológicas (REDONE).

Os resultados indicam que a atualização do protocolo nacional não apenas ampliou a presença de terapias de alta eficácia no SUS, mas também esteve associada ao aumento do número de pacientes atendidos. Para os pesquisadores, os dados reforçam a importância de combinar diretrizes atualizadas, acompanhamento especializado e análise contínua dos resultados obtidos na prática clínica.