segunda-feira, 13 de julho de 2026 11:11
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Relatório aponta R$ 1,3 bilhão em emendas da Câmara com autoria oculta por lideranças partidárias

Palácio do Congresso Nacional na Esplanada dos Ministérios em Brasília

 

Levantamento da Transparência Brasil indica que recursos foram registrados em nome de líderes de partidos, sem identificação dos parlamentares responsáveis pelas indicações

Um relatório divulgado pela organização Transparência Brasil aponta que R$ 1,3 bilhão em emendas de liderança da Câmara dos Deputados, referentes ao Orçamento de 2025, foram registrados com autoria atribuída às lideranças partidárias, sem identificação dos parlamentares que efetivamente indicaram a destinação dos recursos. Segundo a entidade, o modelo dificulta a rastreabilidade das emendas e compromete a transparência sobre a aplicação do dinheiro público.

De acordo com o levantamento, o Progressistas (PP), o União Brasil e o Partido Liberal (PL) concentram os maiores volumes de recursos registrados nessa modalidade. Também aparecem na lista Republicanos, Avante, Solidariedade e Podemos.

O Progressistas lidera o ranking com 464 indicações, totalizando R$ 427,7 milhões. Em seguida aparecem o União Brasil, com 303 indicações e R$ 288,7 milhões; o PL, com 234 indicações e R$ 254,3 milhões; o Republicanos, com R$ 218,4 milhões; Avante, com R$ 30 milhões; Solidariedade, com R$ 22 milhões; e Podemos, com R$ 19 milhões.

Os dados foram compilados a partir de documentos disponibilizados pela Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) do Congresso Nacional. Ao todo, as emendas de comissão somaram R$ 11,7 bilhões em 2025, sendo R$ 7,9 bilhões provenientes da Câmara dos Deputados e R$ 3,8 bilhões do Senado. Enquanto todas as indicações do Senado estavam vinculadas nominalmente a um parlamentar, a Transparência Brasil afirma que parte significativa das emendas da Câmara foi registrada apenas em nome das lideranças partidárias.

Segundo o relatório, a distribuição dos recursos sugere que diferentes deputados indicam beneficiários dentro de cada legenda, enquanto as lideranças partidárias aparecem formalmente como autoras das indicações. “A prática sugere que a escolha do beneficiário final é feita por diversos deputados da legenda, de diferentes regiões do país, com caciques partidários se apropriando de maiores volumes para seus estados de interesse. Nenhum desses parlamentares é identificado”, afirma a organização.

O estudo também mostra concentração de recursos em estados ligados às bases eleitorais das lideranças partidárias. No caso do União Brasil, por exemplo, R$ 134,9 milhões — o equivalente a 47% das emendas de liderança do partido — foram destinados ao Maranhão, estado do líder da bancada na Câmara, deputado Pedro Lucas Fernandes. Já no Progressistas, mais da metade dos recursos dessa modalidade foi destinada ao Piauí, estado considerado base política do presidente nacional da legenda, senador Ciro Nogueira.

Entre os líderes partidários analisados, Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ) teve 100% das emendas de liderança destinadas ao Rio de Janeiro. Neto Carletto (Avante-BA) concentrou 67% dos recursos na Bahia; Gilberto Abramo (Republicanos-MG), 17% em Minas Gerais; Rodrigo Gambale (Podemos-SP), 21% em São Paulo; e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), 8% no Rio de Janeiro.

A Transparência Brasil afirma que esse cenário reforça o entendimento de que as chamadas “emendas de liderança” não representam decisões exclusivas dos líderes partidários, mas sim um mecanismo que dificulta a identificação dos autores reais das indicações.

O levantamento aponta ainda que o modelo permanece em 2026. Dados coletados até maio deste ano identificaram R$ 373,8 milhões em emendas registradas com autoria das lideranças partidárias. Além dos partidos já identificados em 2025, o PT passou a integrar o grupo, com R$ 107,5 milhões registrados nessa modalidade. O Republicanos aparece como a legenda com maior volume parcial em 2026, somando R$ 126,5 milhões.

Outro ponto destacado pelo relatório é a dificuldade de acesso às atas das reuniões que definem a distribuição das emendas. A legislação determina que esses documentos sejam públicos, mas, segundo a Transparência Brasil, a Câmara dos Deputados apresentou respostas consideradas evasivas aos pedidos de acesso, impedindo verificar se as indicações foram aprovadas pelas bancadas e quem seriam os parlamentares responsáveis pelas propostas.

Além disso, o cruzamento das informações constantes nos registros da Câmara, do Senado e do Portal da Transparência revelou que aproximadamente R$ 821 milhões em recursos empenhados não puderam ser associados às indicações disponíveis nas bases públicas, dificultando ainda mais o rastreamento da destinação dos recursos orçamentários.