Governo rejeita indenização a empresas por fim da escala 6×1 e redução da jornada

© Lula Marques/ Agência Brasil.

 

Ministro da Fazenda defendeu mudanças nas relações de trabalho e afirmou que debate faz parte de transformação mundial

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta terça-feira (12) ser “radicalmente contra” qualquer tipo de compensação financeira ou indenização a empresas em caso de aprovação de propostas que reduzam a jornada de trabalho e acabem com a escala 6×1 no Brasil.

A declaração foi feita durante audiência pública na comissão especial da Câmara dos Deputados que discute mudanças nas regras trabalhistas.

Segundo o ministro, a redução da jornada integra uma transformação global nas relações de trabalho e não deve ser tratada como prejuízo ao setor produtivo.

“Muita gente fala em indenização, em compensação. Eu sou radicalmente contra isso”, afirmou.

Congresso discute propostas

A comissão especial da Câmara analisa atualmente duas propostas de emenda à Constituição (PECs) sobre o tema.

Uma delas foi apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e prevê jornada semanal de quatro dias de trabalho, com prazo de 360 dias para implementação.

A segunda proposta, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), estabelece redução gradual da jornada para 36 horas semanais ao longo de dez anos.

Paralelamente, o governo federal enviou ao Congresso um projeto de lei propondo redução da carga horária semanal para 40 horas e diminuição da escala de seis para cinco dias trabalhados por semana.

“Hora do trabalho pertence ao trabalhador”

Durante a audiência, Durigan afirmou que o tempo de trabalho não pertence ao empregador.

“A titularidade da hora do trabalho não é do empregador”, declarou.

Segundo ele, mudanças semelhantes ocorreram historicamente em diversos países sem a necessidade de compensações financeiras às empresas.

“Quando a gente reconhece ganhos geracionais, isso não é só o Brasil que faz, isso é um debate mundial”, afirmou.

O ministro também argumentou que jornadas menores podem estimular aumento de produtividade e melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores.

Setor produtivo teme impactos

Representantes da indústria e do setor produtivo demonstram preocupação com possíveis aumentos de custos e impactos na competitividade.

Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), citado durante o debate, estima que a redução da jornada para 40 horas semanais poderia provocar impacto negativo de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a cerca de R$ 76,9 bilhões.

Durigan, porém, afirmou que a mudança pode incentivar ganhos de eficiência nas empresas.

“É preciso otimizar essa dinâmica de trabalho. É preciso corrigir gargalos de eficiência”, disse.

Apoio a pequenas empresas

Apesar de rejeitar indenizações, o ministro afirmou que o governo está disposto a discutir medidas de apoio para pequenas empresas durante uma eventual transição.

Entre as possibilidades citadas estão ampliação de linhas de crédito, programas de capacitação e incentivo à digitalização dos negócios.

“Acho que o Estado precisa ter linha de crédito, o Estado precisa ajudar na transformação digital”, declarou.

Durigan também mencionou programas semelhantes ao Desenrola voltados a pequenos empreendedores e destacou mecanismos já existentes, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Simples Nacional.

Negociação coletiva seguirá importante

O ministro defendeu ainda a manutenção do espaço para negociação coletiva entre empresas e trabalhadores, mesmo com possíveis mudanças na legislação trabalhista.

“É muito importante que a gente siga tendo espaço de negociação coletiva entre o setor patronal e o setor trabalhista”, afirmou.

Durante a audiência, o relator da proposta, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), afirmou que o Brasil possui uma das maiores jornadas de trabalho do mundo, mas baixa produtividade.

“Nós temos a quarta maior jornada do mundo, 44 horas semanais, e temos uma das piores produtividades do mundo”, declarou.

Segundo o cronograma da comissão, o parecer sobre a PEC deverá ser apresentado ainda neste mês.