Fragmentação da vegetação nativa cresce 260% no Brasil em quase quatro décadas, aponta MapBiomas

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Estudo mostra avanço da degradação ambiental e redução no tamanho das áreas verdes remanescentes em todos os biomas brasileiros

O número de fragmentos isolados de vegetação nativa no Brasil aumentou 260% entre 1986 e 2023, passando de 2,7 milhões para 7,1 milhões de porções espalhadas pelo território nacional. Os dados fazem parte de um novo estudo divulgado nesta quarta-feira (13) pelo MapBiomas.

O levantamento integra o Módulo de Degradação da plataforma MapBiomas, ferramenta voltada ao monitoramento das transformações da cobertura vegetal e do uso da terra no país. Pela primeira vez, o estudo analisou de forma detalhada o processo de fragmentação da vegetação nativa.

Segundo os pesquisadores, o crescimento no número de fragmentos revela como o desmatamento transformou grandes áreas contínuas de vegetação em pequenos remanescentes isolados.

Além do aumento na quantidade de fragmentos, o estudo identificou uma redução significativa no tamanho médio dessas áreas. Em 1986, cada fragmento possuía, em média, 241 hectares. Em 2023, esse número caiu para apenas 77 hectares.

Perda de biodiversidade preocupa pesquisadores

O coordenador do Módulo de Degradação e pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Dhemerson Conciani, alertou para os impactos ambientais causados pela fragmentação.

Segundo ele, áreas menores dificultam a preservação da fauna e da flora e aumentam os riscos de extinção local de espécies.

“Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem”, afirmou o pesquisador.

Conciani também destacou o chamado “efeito de borda”, fenômeno que altera as características naturais das áreas próximas às regiões degradadas.

Mata Atlântica e Cerrado concentram mais fragmentos

O estudo mostra que quase 5% da vegetação nativa brasileira — o equivalente a 26,7 milhões de hectares — está distribuída em fragmentos menores que 250 hectares.

A Mata Atlântica é o bioma com maior proporção de pequenas áreas isoladas, que representam cerca de 28% da vegetação remanescente, somando aproximadamente 10 milhões de hectares.

Em números absolutos, Mata Atlântica e Cerrado lideram a quantidade de fragmentos, com cerca de 2,7 milhões cada.

De acordo com a coordenadora técnica de Mata Atlântica do MapBiomas, Natalia Crusco, o aumento da fragmentação ocorre de formas diferentes nos dois biomas.

Segundo ela, no Cerrado o avanço está diretamente ligado ao desmatamento e à divisão de grandes áreas naturais. Já na Mata Atlântica, parte do crescimento também está relacionada à recuperação de vegetação secundária.

Amazônia e Pantanal tiveram maior avanço da fragmentação

Entre os biomas brasileiros, o Pantanal e a Amazônia registraram os maiores aumentos na fragmentação da vegetação ao longo dos últimos 38 anos.

No Pantanal, o número de fragmentos cresceu 350%. Já na Amazônia, o aumento foi de 332%.

O estudo também aponta crescimento da fragmentação no Pampa (285%), no Cerrado (172%), na Caatinga (90%) e na Mata Atlântica (68%).

A Amazônia também apresentou a maior redução no tamanho médio dos fragmentos. Em 1986, essas áreas tinham média de 2.727 hectares. Em 2023, passaram para apenas 492 hectares.

Estudo detecta degradação em florestas da Amazônia Legal

Outra novidade do levantamento foi a identificação de distúrbios no dossel florestal da Amazônia Legal — camada formada pelas copas das árvores mais altas.

Entre 1988 e 2024, foram detectados sinais de degradação em 24,9 milhões de hectares, área equivalente a 7% da cobertura florestal da região.

Segundo os pesquisadores, as principais causas incluem secas, incêndios, ventos fortes, corte seletivo de madeira e efeitos de borda.

O estudo identificou ainda 9,7 milhões de hectares com indícios de exploração seletiva de madeira na Amazônia Legal.

Degradação atinge 24% da vegetação remanescente

O MapBiomas aponta que 24% de toda a vegetação nativa remanescente no Brasil está exposta a pelo menos um vetor de degradação ambiental, o equivalente a 134 milhões de hectares.

Para Dhemerson Conciani, o monitoramento detalhado desses impactos pode auxiliar na formulação de políticas públicas voltadas à redução do desmatamento e das emissões de gases de efeito estufa.

“Ao detectar a degradação de forma precoce é possível reverter esse processo e estabelecer áreas prioritárias para recuperação da vegetação nativa”, concluiu o pesquisador.