sexta-feira, 4 de setembro de 2026 14:14
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Quase 2 milhões de brasileiros trabalharam por aplicativos em 2025

© Paulo Pinto/Agência Brasil

 

 

Pesquisa do IBGE mostra que trabalhadores de plataformas têm jornadas mais longas, menor rendimento por hora e maior nível de informalidade

 

 

 

Cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no Brasil em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados nesta sexta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maioria atuava por conta própria, tinha jornadas semanais mais extensas e recebia menos por hora trabalhada do que os demais trabalhadores do setor privado.

De acordo com o levantamento, 1,959 milhão de pessoas de 14 anos ou mais estavam ocupadas por meio de plataformas digitais, o equivalente a 1,9% do total de ocupados no país. O IBGE classifica esse grupo como trabalhadores “plataformizados”.

Transporte concentra maioria dos trabalhadores

O transporte de passageiros é a principal atividade entre os trabalhadores de aplicativos. Aproximadamente 1,2 milhão de pessoas utilizavam plataformas para transportar passageiros, o equivalente a 58,9% dos plataformizados.

Desse total, cerca de 1,1 milhão trabalhavam por meio de aplicativos como Uber e 99, enquanto 232 mil utilizavam exclusivamente aplicativos de táxi.

Os entregadores representavam 19,2% dos trabalhadores plataformizados, com aproximadamente 376 mil pessoas realizando entregas de alimentos, produtos e outros itens por plataformas como iFood, Rappi e Zé Delivery.

Outra categoria identificada pelo IBGE reúne trabalhadores que prestam serviços gerais ou profissionais por meio de plataformas digitais. Em 2025, eram 313 mil pessoas, ou 16% do total. O grupo inclui atividades como design, tradução e até serviços de telemedicina.

O setor de transporte, armazenagem e correios apresentou a maior participação de trabalhadores plataformizados: 75%. Na prática, isso significa que três em cada quatro trabalhadores desse segmento utilizavam plataformas digitais.

Número de trabalhadores cresce

A pesquisa sobre trabalho por plataformas ainda é considerada experimental pelo IBGE e já havia sido realizada em 2022 e 2024.

As edições anteriores, no entanto, consideravam apenas pessoas que tinham os aplicativos como ocupação principal. Em 2025, o levantamento também passou a incluir trabalhadores que utilizavam as plataformas como fonte de renda complementar.

Por isso, o total de 1,959 milhão não pode ser diretamente comparado aos números das pesquisas anteriores. Considerando somente quem tinha os aplicativos como ocupação principal, o contingente chegou a 1,8 milhão em 2025.

AnoTrabalhadores com apps como ocupação principal
20221,3 milhão
20241,7 milhão
20251,8 milhão

O número representa crescimento de 9,1% entre 2024 e 2025 e de 36,8% em três anos.

Entre 2024 e 2025, os entregadores foram a categoria que apresentou o maior crescimento, de 18,6%.

Falta de outras oportunidades é principal motivação

Entre as pessoas que tinham os aplicativos como principal ocupação, 84,4% eram homens. Em relação à idade, 47% tinham entre 25 e 39 anos.

O IBGE também investigou os motivos que levaram os trabalhadores a utilizar as plataformas.

Entre motoristas de aplicativos de transporte, exceto táxis, e entregadores, o principal motivo apontado foi não conseguir encontrar outro trabalho. Também foram citadas a possibilidade de ter maior flexibilidade e a expectativa de obter rendimento superior ao oferecido em outras ocupações disponíveis.

Jornadas mais longas e menor rendimento por hora

Apesar de terem rendimento mensal semelhante ao dos demais trabalhadores, os plataformizados trabalhavam mais horas por semana.

Em 2025, o rendimento médio mensal do trabalho principal foi de R$ 3.147 entre os trabalhadores de aplicativos, praticamente o mesmo valor registrado entre os não plataformizados, de R$ 3.148.

No entanto, a jornada média dos plataformizados chegou a 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas dos demais trabalhadores. A diferença foi de 5,4 horas por semana.

Como consequência, o rendimento médio por hora foi menor entre os trabalhadores de aplicativos: R$ 16,20, contra R$ 18,40 entre os não plataformizados. A diferença corresponde a aproximadamente 12%.

O IBGE esclarece que o rendimento considerado para os plataformizados corresponde ao valor efetivamente retirado pelo trabalhador depois da dedução de custos relacionados à atividade, como combustível.

Informalidade é maior entre plataformizados

A pesquisa também identificou uma diferença significativa na informalidade e na cobertura previdenciária.

Entre os trabalhadores de aplicativos, 72,1% estavam na informalidade, enquanto o percentual era de 42,7% entre os não plataformizados.

A cobertura previdenciária também era menor entre os plataformizados: 34%, contra 63% dos demais trabalhadores.

Para o IBGE, são considerados informais, por exemplo, empregados sem carteira assinada e trabalhadores por conta própria que não possuem CNPJ. Nesses casos, há menor acesso a direitos trabalhistas e previdenciários.

Trabalhadores são autônomos, mas dependem das plataformas

Aproximadamente 86,8% dos trabalhadores de aplicativos atuavam por conta própria, proporção muito superior à registrada entre os ocupados do setor privado em geral, de 28,9%.

Apesar disso, o IBGE identificou sinais de dependência desses trabalhadores em relação às plataformas digitais.

Entre motoristas de aplicativos de transporte, exceto táxis, 80,2% afirmaram que o valor recebido por cada tarefa depende totalmente da plataforma. Entre entregadores, o percentual foi de 78,3%.

Além disso, 65,9% dos entregadores disseram que o prazo para realização das tarefas depende dos aplicativos, enquanto 71,3% afirmaram que a forma de recebimento do pagamento é determinada pela plataforma.

Segundo o analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, essa situação diferencia os trabalhadores de aplicativos de um trabalhador autônomo tradicional, já que, apesar de não haver vínculo formal, existe dependência em diferentes aspectos em relação à empresa responsável pela plataforma.

Dados entram no debate sobre a “uberização”

A divulgação dos dados ocorre poucos dias depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) adiar a retomada do julgamento sobre a chamada “uberização” do trabalho.

Representantes de categorias como motoristas e entregadores defendem o reconhecimento de vínculo empregatício com as plataformas digitais, sob o argumento de que o atual modelo pode levar à precarização das relações de trabalho. As principais empresas do setor contestam essa interpretação.

O debate também envolve a posição da Procuradoria-Geral da República (PGR), que já se manifestou contra o reconhecimento de vínculo trabalhista entre motoristas e aplicativos.

 

 

Informação da Agência Brasil