sábado, 22 de agosto de 2026 20:20
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Bajulação de chatbots de IA pode reduzir pensamento crítico, aponta estudo da USP

Zac Wolff/Unsplash

Pesquisa publicada na revista AI & Society aponta que a tendência de modelos de linguagem de concordar e elogiar usuários faz parte da própria estrutura dos sistemas e pode criar uma relação de dependência cognitiva.

Se você já teve a impressão de que chatbots de inteligência artificial concordam facilmente com suas opiniões ou elogiam excessivamente suas ideias, o comportamento pode ter uma explicação. Um estudo publicado na revista científica AI & Society aponta que a chamada “bajulação” é uma característica estrutural dos grandes modelos de linguagem.

A pesquisa foi desenvolvida por Seth Jacobowitz, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Segundo o estudo, respostas excessivamente agradáveis não seriam apenas resultado de uma falha de programação, mas também desempenhariam funções práticas na interação entre humanos e sistemas de inteligência artificial.

De acordo com o pesquisador, esse comportamento pode cumprir pelo menos três funções. A primeira é o direcionamento, ao manter a conversa concentrada no assunto apresentado pelo usuário e evitar que a IA se afaste do tema. A segunda é a consistência, ajudando a criar uma personalidade previsível para o sistema.

A terceira função apontada é a dependência cognitiva. Ao reduzir o esforço mental necessário para conduzir uma conversa e validar constantemente as ideias apresentadas, o chatbot pode criar uma espécie de zona de conforto intelectual para o usuário.

Riscos para o pensamento crítico

É justamente nesse último aspecto que está um dos principais alertas do estudo. A interação excessivamente complacente pode contribuir para uma espécie de degradação cognitiva bidirecional: o usuário deixa de exercitar o pensamento crítico por receber validação constante, enquanto a própria inteligência artificial perde oportunidades de aprimorar suas respostas quando não é questionada ou confrontada.

Para Jacobowitz, o problema está no desequilíbrio da relação entre pessoa e máquina.

“A solução não está em um extremo nem no outro, mas em um equilíbrio. A bajulação causa uma espécie de mediocridade mutuamente reforçada, onde nem o humano desafia a máquina, nem a máquina desafia o humano”, explica o pesquisador.

O estudo também aponta que a delegação de reflexões e decisões aos sistemas de inteligência artificial pode provocar uma perda gradual de autonomia intelectual. Nesse cenário, quanto mais o usuário transfere para a ferramenta tarefas que exigem análise, julgamento e tomada de decisão, maior pode ser a dependência em relação ao sistema.

Tentativas de reduzir a bajulação

A dificuldade de encontrar um equilíbrio também aparece nas experiências realizadas pelas próprias empresas de tecnologia. Em 2025, uma atualização do ChatGPT chegou a produzir respostas consideradas excessivamente apoiadoras, mas insinceras, o que provocou críticas e levou a mudanças no sistema.

Uma experiência semelhante ocorreu com a Anthropic, que tentou reduzir esse tipo de comportamento no Claude. A alteração, porém, fez o chatbot assumir uma postura considerada excessivamente crítica e confrontacional, levando a empresa a reverter a mudança.

Os episódios mostram o desafio de desenvolver sistemas que sejam capazes de manter uma interação agradável sem simplesmente concordar com o usuário em todas as situações.

Uso crítico

Para o pesquisador, a solução não está em rejeitar a inteligência artificial, mas em desenvolver uma relação mais consciente com essas ferramentas. A tecnologia tende a ocupar um espaço cada vez maior nas atividades cotidianas, tornando necessário compreender como os sistemas funcionam e quais efeitos podem produzir sobre o comportamento humano.

“A IA não vai desaparecer. Pelo contrário: ela vai ficar cada vez mais integrada ao nosso cotidiano. Por isso, precisamos entender como esses sistemas funcionam e também aprender a nos relacionar melhor com eles”, afirma Jacobowitz.

A recomendação, portanto, é utilizar os chatbots como ferramentas de apoio, sem transformar a validação oferecida pela máquina em substituta do próprio julgamento. A capacidade de questionar, discordar e verificar as informações continua sendo essencial mesmo diante de respostas produzidas por sistemas cada vez mais sofisticados.