
Nova versão do programa amplia descontos, permite uso do FGTS e mira reduzir impacto da inadimplência entre brasileiros
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve lançar, na próxima segunda-feira (4), o programa “Desenrola 2.0”, voltado à renegociação de dívidas de brasileiros inadimplentes. A iniciativa é uma reformulação do Desenrola Brasil e busca ampliar o alcance das negociações, em um cenário em que o país soma 81,7 milhões de pessoas endividadas, segundo dados da Serasa divulgados em março.
A nova versão do programa foi articulada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que assumiu o cargo após a saída de Fernando Haddad. Para viabilizar a proposta, o governo intensificou negociações com instituições financeiras, incluindo Itaú, Santander Brasil, BTG Pactual, Bradesco e Nubank, além da Federação Brasileira de Bancos.
O Desenrola 2.0 prevê descontos que podem variar entre 20% e 90% sobre dívidas, especialmente aquelas com juros elevados, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Entre as novidades, está a possibilidade de uso de até 20% do saldo do FGTS para quitar débitos, medida que busca acelerar a regularização financeira das famílias.
Diferentemente de programas com aporte direto de recursos públicos, o modelo se baseia em garantias oferecidas pelo governo às instituições financeiras. Na prática, os bancos concedem descontos e refinanciam as dívidas, enquanto o Estado assume parte do risco em caso de inadimplência futura. Segundo Durigan, a estratégia permite reduzir juros e ampliar o acesso à renegociação sem impacto imediato nas contas públicas.
Especialistas, no entanto, apontam possíveis riscos fiscais. A advogada tributarista Mary Elbe Queiroz avalia que o custo do programa pode se materializar ao longo do tempo, caso haja inadimplência nos acordos firmados. Ela também destaca que o uso do FGTS — tradicionalmente uma reserva para situações como demissão — pode gerar efeitos futuros de instabilidade para trabalhadores, ao substituir uma proteção de longo prazo por alívio financeiro imediato.
Lançado originalmente em 2023, o Desenrola Brasil teve caráter emergencial, com foco na quitação de dívidas de menor valor e incentivo à retomada do consumo. Já o Desenrola 2.0 amplia o escopo, incluindo novos públicos e mecanismos mais estruturados de negociação, com maior integração ao sistema financeiro.
A iniciativa ocorre em um contexto em que o alto nível de endividamento tem sido apontado como um dos fatores que afetam a percepção da população sobre a economia. Apesar de indicadores como inflação e desemprego apresentarem melhora, especialistas avaliam que o comprometimento da renda com dívidas limita a sensação de avanço econômico entre os brasileiros.
Nesse cenário, o programa também é visto como uma estratégia do governo para ampliar o alcance das políticas econômicas junto à população e reduzir os impactos sociais da inadimplência.









