
Pesquisa publicada na revista Thorax acompanhou 63 casais e identificou melhora na qualidade do sono e redução da sonolência dos parceiros após o tratamento com CPAP.
O ronco frequente pode prejudicar não apenas a pessoa que apresenta o sintoma, mas também quem dorme ao lado. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Thorax mostrou que o tratamento da apneia obstrutiva do sono pode melhorar a qualidade do descanso dos parceiros que convivem com o problema.
A pesquisa acompanhou 63 casais em que um dos parceiros apresentava apneia obstrutiva do sono moderada ou grave. Antes do tratamento, os parceiros relatavam sono fragmentado, dificuldade para adormecer, menor duração do descanso e pior qualidade do sono.
Os pacientes com apneia foram divididos entre dois grupos. Um recebeu tratamento com CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas), equipamento que mantém as vias respiratórias abertas durante o sono. O outro utilizou uma intervenção placebo com tiras nasais.
Após três meses, os parceiros das pessoas que utilizaram CPAP apresentaram melhora na qualidade do sono e redução da sonolência durante o dia. Também passaram menos tempo acordados depois de adormecer e tiveram menos despertares ao longo da noite.
“Quando falamos sobre ronco, normalmente nossa preocupação está concentrada em quem apresenta o sintoma. Mas o sono é compartilhado. Se o parceiro desperta diversas vezes durante a noite por causa do barulho ou das alterações respiratórias de quem está ao lado, ele também pode não conseguir manter um sono contínuo e reparador”, explica o Dr. Fábio Caparroz, coordenador do Departamento de Medicina do Sono da ABORL-CCF.
Como o ronco afeta o parceiro
O ronco pode provocar interrupções no sono de quem divide a cama. Mesmo sem um despertar completo, os ruídos e as alterações respiratórias podem fragmentar o descanso e prejudicar a continuidade do sono.
Uma pesquisa anterior da Mayo Clinic acompanhou dez casais durante uma polissonografia. Quando o ronco e os eventos respiratórios dos pacientes foram controlados com CPAP, a eficiência do sono dos parceiros aumentou, em média, de 74% para 87%.
Os pesquisadores calcularam que essa diferença equivaleria a aproximadamente 62 minutos adicionais de sono em uma noite de oito horas na cama.
A repetição de noites mal dormidas pode provocar consequências durante o dia, como cansaço, sonolência, dificuldade de concentração e alterações de humor.
“Não é apenas uma questão de quantidade de horas. Uma pessoa pode permanecer oito horas na cama e ainda acordar cansada se o sono for interrompido repetidamente”, afirma Caparroz.
Ronco pode indicar apneia?
Nem toda pessoa que ronca apresenta apneia obstrutiva do sono. O ronco pode ocorrer isoladamente, e a avaliação médica considera outros sintomas e fatores antes da indicação de exames.
Alguns sinais, porém, podem levantar suspeita de apneia, como ronco intenso e frequente, pausas na respiração, engasgos ou sensação de sufocamento durante a noite.
O parceiro pode ter papel importante na identificação desses sinais, já que a própria pessoa que dorme pode não perceber as alterações respiratórias.
“Muitas vezes, é justamente quem dorme ao lado que percebe que o ronco é acompanhado por pausas respiratórias. O paciente está dormindo e pode não ter consciência do que acontece durante a noite”, explica o Prof. Dr. André Alencar Araripe Nunes, presidente da ABORL-CCF.
Também merecem atenção sintomas durante o dia, como sonolência excessiva, sensação de sono não reparador, dificuldade de concentração e despertares frequentes.
Dormir em quartos separados resolve?
Dormir em quartos diferentes pode reduzir a exposição ao barulho, mas não trata a causa do ronco ou uma eventual apneia.
Uma pesquisa que comparou mulheres que dormiam ao lado de parceiros que roncavam com noites em que dormiam sozinhas encontrou redução de alguns indicadores de fragmentação do sono quando elas estavam sozinhas. O estudo, porém, não identificou melhora substancial em todas as medidas objetivas de qualidade do sono.
Por isso, quando o ronco é frequente ou intenso, é importante investigar o que está provocando o problema, principalmente quando existem outros sinais associados.
“Se o ronco está prejudicando sistematicamente o descanso do casal, vale investigar. E, principalmente, se existem pausas respiratórias, engasgos ou outros sinais sugestivos de apneia, não devemos normalizar o problema apenas porque a pessoa ronca há muitos anos”, reforça Nunes.
Tratamento da apneia
O CPAP foi utilizado no estudo como tratamento para os pacientes com apneia obstrutiva do sono. O equipamento mantém as vias aéreas abertas durante o sono e, na pesquisa, a melhora do quadro também esteve associada a mudanças na qualidade do descanso dos parceiros.
O diagnóstico e o tratamento da apneia podem envolver diferentes estratégias, de acordo com as características de cada paciente. Entre as opções estão o CPAP, aparelhos intraorais e outras abordagens terapêuticas.
Os avanços no diagnóstico e no tratamento da apneia obstrutiva do sono estarão entre os temas discutidos no 56º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, marcado para ocorrer entre 19 e 21 de novembro, no Paraná.
O evento reunirá especialistas brasileiros e internacionais para discutir distúrbios do sono e novas estratégias de diagnóstico e tratamento.









