
Direção afirma ter cumprido 100% das metas de gestão, mas deputados, MPDFT e Conselho de Saúde questionam indicadores e apontam problemas na rede pública
Representantes do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF) apresentaram, nesta segunda-feira (28), na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), a prestação de contas referente ao primeiro quadrimestre de 2026. A audiência pública foi realizada pela Comissão de Saúde (CSA), presidida pela deputada Dayse Amarilio (PSB), com participação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), do Conselho de Saúde e de representantes da sociedade civil.
Durante a apresentação, a diretora-presidente do Iges-DF, Eliane Souza de Abreu, informou que o instituto cumpriu 100% das metas de gestão pactuadas no período. Foram apresentados dados sobre desempenho institucional, utilização de emendas parlamentares, gestão de recursos, logística, contratos e situação financeira.
Apesar dos números apresentados pela direção, a audiência foi marcada por questionamentos sobre a realidade enfrentada pelos usuários da rede pública de saúde. A deputada Dayse Amarilio afirmou que alguns indicadores apresentados pelo instituto não correspondem ao que é percebido nos serviços de saúde.
Segundo a parlamentar, seu gabinete recebe relatos frequentes de dificuldades de acesso ao atendimento, principalmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade. Ela também criticou o encaminhamento de pacientes psiquiátricos para Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), além de mencionar problemas relacionados à falta de profissionais, medicamentos básicos e episódios de violência contra trabalhadores da saúde.
“Vai demorar a arrumar a saúde de Brasília porque ela não foi prioridade. Nós temos um problema que é orçamentário e que se reflete no colapso geral de todos os hospitais e sistemas”, afirmou Dayse Amarilio.
MPDFT questiona modelo de gestão
O promotor de Justiça Jairo Bisol também fez críticas durante a audiência. Ele questionou a ausência do secretário de Saúde e colocou em discussão o modelo de gestão compartilhada entre a Secretaria de Saúde e o Iges-DF.
Para Bisol, a divisão de responsabilidades pode dificultar a definição sobre quem deve prestar contas dos resultados à população. “Não é o secretário de saúde que deveria estar aqui prestando contas? Me parece que o Iges deveria prestar contas ao secretário e ele prestar à população”, afirmou.
O presidente do Conselho de Saúde do DF, Domingos de Brito Filho, também contestou os indicadores apresentados. Segundo ele, os números do relatório não refletem as demandas recebidas pelo conselho e os índices pactuados entre o Iges-DF e a Secretaria de Saúde não estariam sendo cumpridos.
Iges-DF destaca economia e recomposição de profissionais
Na defesa da gestão, Eliane de Abreu afirmou que o Poder Executivo tem realizado esforços para viabilizar as entregas do instituto. Entre as medidas apresentadas está a revisão da estrutura organizacional, que teria gerado economia superior a R$ 200 mil por mês.
A presidente também informou que 530 profissionais de saúde já foram realocados para as UPAs como parte das medidas de recomposição da força de trabalho. O instituto destacou ainda o fortalecimento do serviço de telessaúde como estratégia para melhorar a gestão do atendimento.
Indicadores financeiros apontam necessidade de recomposição
Entre os dados apresentados, o Iges-DF informou ter cumprido 100% das metas pactuadas nas áreas de ensino e pesquisa. No entanto, o indicador de sustentabilidade financeira, conhecido como Fator K, fechou o período em 1,92, abaixo da faixa contratual de 2,26 a 2,5. Segundo o relatório, o resultado demonstra a necessidade de recomposição financeira da instituição.
A receita total nos três primeiros meses de 2026 foi de R$ 784 milhões, enquanto a despesa executada alcançou R$ 788 milhões. Desse total, R$ 26,7 milhões foram destinados a investimentos. O instituto iniciou o ano com R$ 46 milhões remanescentes de 2025.
O relatório também aponta redução da dívida do Iges-DF, que passou de R$ 171,7 milhões no primeiro trimestre de 2022 para R$ 33,4 milhões em 2026. Ainda assim, técnicos do instituto apontaram defasagem financeira.
A presidente do Iges informou ter protocolado pedido de reequilíbrio financeiro junto à Secretaria de Saúde e afirmou que, naquele momento, não havia atraso no pagamento de terceirizados.
R$ 17 milhões em novos convênios
Na prestação de contas, o instituto também destacou a captação de recursos por meio de emendas parlamentares e convênios federais. Foram garantidos R$ 17 milhões em 23 novos convênios com o Ministério da Saúde. Os recursos serão destinados à aquisição de equipamentos e ao fortalecimento da estrutura assistencial do Hospital de Base, Hospital Regional de Santa Maria e UPAs.
Na área de logística, o Iges informou ter adquirido 1.075 itens durante o período, atendendo a 84% das demandas de compras registradas. O instituto também registrou redução de R$ 7,78 milhões nos estoques em comparação com o ano anterior.
Contratos também entram no debate
Outro ponto de discussão foi a gestão dos contratos. Em 30 de abril, o Iges-DF mantinha 1.450 instrumentos contratuais vigentes, sendo 1.316 relacionados a aquisições, 116 a serviços e 18 a locações. No primeiro trimestre, foram formalizados 793 novos instrumentos.
Os contratos celebrados no período somaram R$ 830 milhões. A deputada Dayse Amarilio questionou a manutenção de contratos por longos períodos com pagamentos por meio de verbas indenizatórias e cobrou maior agilidade nos processos de licitação.
A direção do Iges-DF afirmou que pretende aprimorar a gestão contratual e reconheceu que algumas questões não podem ser solucionadas imediatamente, mas que já foram identificadas e estão sendo acompanhadas pela administração.
A avaliação das metas do Iges-DF deverá continuar em uma nova audiência da Comissão de Saúde da Câmara Legislativa.
Com informações da CLDF









