
Pesquisa do IPEDF aponta que mais de três em cada quatro mulheres no Distrito Federal já sofreram violência e evidencia a necessidade de fortalecer a rede de proteção às vítimas.
O enfrentamento ao feminicídio e à violência contra a mulher permanece como uma das principais prioridades das políticas públicas no Distrito Federal. Além da atuação das forças de segurança e da rede de proteção às vítimas, o Governo do Distrito Federal (GDF) mantém canais permanentes de denúncia e atendimento para acolher mulheres em situação de violência e estimular o rompimento do ciclo de agressões.
A conscientização da população também é considerada fundamental para prevenir casos de violência doméstica e feminicídio. Denunciar agressões, oferecer apoio às vítimas e reconhecer os sinais de violência são atitudes que podem salvar vidas.
Canais de denúncia e atendimento
Mulheres em situação de violência ou qualquer pessoa que tenha conhecimento de agressões podem recorrer aos seguintes serviços:
- Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
- Atendimento gratuito, confidencial e disponível 24 horas por dia.
- Orientação, acolhimento e encaminhamento para a rede de proteção.
- Ligue 190 – Polícia Militar
- Para situações de emergência ou quando a violência estiver acontecendo.
- Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF)
- Telefone: 197 – Opção 3, para denúncias de violência contra a mulher.
- WhatsApp: (61) 98626-1197.
- Delegacia Eletrônica
- Permite registrar ocorrências de violência doméstica pela internet.
- Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAM)
- DEAM I – Asa Sul (atendimento 24 horas).
- DEAM II – Ceilândia (atendimento 24 horas).
Pesquisa revela dimensão da violência
Em junho deste ano, o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF Codeplan), em parceria com a Secretaria de Estado da Mulher (SMDF), apresentou o estudo “Panorama da Violência contra a Mulher no Distrito Federal”, considerado um dos levantamentos mais abrangentes já realizados sobre o tema na capital.
A pesquisa buscou mensurar a violência contra a mulher, identificar as formas e os contextos em que ela ocorre, analisar a percepção da população sobre o problema e compreender fatores relacionados aos casos de feminicídio registrados no Distrito Federal.
O levantamento foi realizado em duas etapas. A primeira ouviu 5.093 homens e mulheres, em 80 pontos de grande circulação distribuídos por todas as regiões administrativas do DF. Na segunda fase, pesquisadores realizaram entrevistas em profundidade com 39 homens condenados por feminicídio de parceiras íntimas, que cumprem pena no Complexo Penitenciário da Papuda.
Mais de sete em cada dez mulheres já sofreram violência
Entre os principais resultados, 77,6% das mulheres entrevistadas afirmaram ter vivido algum tipo de violência ao longo da vida. Destas, 44,8% reconheceram explicitamente que foram vítimas de violência, enquanto 15,4% relataram permanecer casadas ou vivendo com o parceiro agressor.
O estudo identificou ainda que a dependência financeira figura entre os principais fatores associados à permanência das vítimas em relacionamentos marcados pela violência.
Desinformação ainda dificulta o enfrentamento
Os pesquisadores também observaram que parte significativa da população ainda apresenta dificuldade em reconhecer determinadas formas de violência.
Quase metade dos entrevistados (49,4%) não considera que impedir a parceira de utilizar o próprio dinheiro configure, em qualquer circunstância, uma forma de violência.
Quando questionados sobre diferentes situações previstas na Lei Maria da Penha, apenas 33,8% das mulheres conseguiram identificar corretamente todas as formas de violência apresentadas no questionário. Entre os homens, esse percentual caiu para 19,7%.
Estereótipos continuam presentes
O levantamento também identificou a permanência de crenças e estereótipos que contribuem para a desigualdade de gênero e podem favorecer ambientes de violência.
Entre os entrevistados, 35,4% concordaram com a afirmação de que “toda mulher é um pouco histérica”; 34,9% afirmaram que “mulher é o sexo frágil”; e 33,3% concordaram com a frase “tem mulher que é para casar e mulher que é para cama”.
Segundo o estudo, essas ideias são rejeitadas em maior proporção pelas mulheres, enquanto entre os homens há maior naturalização dessas concepções.
Diferenças entre regiões do Distrito Federal
A pesquisa também identificou diferenças na percepção da violência entre regiões administrativas com diferentes níveis de renda.
Em áreas de maior renda, como Lago Sul, Sudoeste/Octogonal e Plano Piloto, os moradores tendem a perceber menos o aumento da violência contra a mulher. Já em regiões como Planaltina, Fercal e Santa Maria, essa percepção é significativamente maior.
Por outro lado, moradores de regiões com maior renda apresentaram maior capacidade de reconhecer corretamente situações de violência doméstica previstas na legislação, enquanto regiões de menor renda registraram mais dificuldade nessa identificação.
Compreender o agressor ajuda a prevenir novos crimes
As entrevistas realizadas com homens condenados por feminicídio revelaram que o crime resulta de uma combinação de fatores sociais, culturais e comportamentais, não sendo consequência de uma causa única.
Segundo o estudo, muitos dos entrevistados apresentavam trajetórias marcadas por modelos de masculinidade baseados em autoridade, controle, rigidez, dificuldade para demonstrar emoções ou buscar ajuda e forte cobrança para exercer o papel de provedor da família.
Também foram identificados comportamentos recorrentes antes da prática do feminicídio, como controle excessivo da parceira, fiscalização do celular, destruição de bens, ameaças, agressões físicas e uso de armas, indicando um processo gradual de escalada da violência.










