terça-feira, 28 de julho de 2026 13:13
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Julho Amarelo reforça alerta para prevenção e diagnóstico precoce das hepatites virais

© Arquivo/Agência Brasil

 

Campanha destaca importância da vacinação, da testagem e do tratamento para reduzir casos de cirrose e câncer de fígado; Brasil registrou mais de 826 mil infecções entre 2000 e 2024.

Celebrado nesta terça-feira (28), o Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais marca o ponto alto da campanha Julho Amarelo, iniciativa criada para conscientizar a população sobre a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das hepatites virais. Instituída no Brasil pela Lei nº 13.802/2019, a mobilização busca ampliar o acesso à informação e incentivar o diagnóstico precoce da doença.

As hepatites virais provocam inflamação aguda ou crônica no fígado e são classificadas de acordo com o vírus causador: A, B, C, D (Delta) e E. No Brasil, os tipos mais frequentes são A, B e C.

Na maioria dos casos, a doença evolui de forma silenciosa, sem apresentar sintomas por longos períodos. Quando surgem, os sinais iniciais costumam ser confundidos com problemas comuns, como fadiga, mal-estar e perda de apetite. Segundo o hepatologista Adriano Moraes, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH), manifestações mais evidentes costumam aparecer apenas em estágios avançados.

“O fígado sofre em silêncio. A maioria das hepatites e doenças hepáticas não causa dor nem sintomas no início. O fígado tem uma grande reserva funcional e isso explica porque ele pode sofrer inflamação por muitos anos sem produzir sintomas evidentes”, explica.

Entre os sintomas mais avançados estão pele e olhos amarelados, urina escura, fezes claras, dor abdominal e coceira. Sem tratamento, as hepatites podem evoluir para formas crônicas e causar complicações graves, como cirrose e câncer de fígado. No caso da hepatite B, o risco de desenvolvimento de câncer ocorre principalmente entre pacientes com cirrose.

Durante o Julho Amarelo, a principal orientação é reforçar a importância do diagnóstico e do tratamento precoces, capazes de reduzir a inflamação do fígado e evitar complicações. De acordo com a Sociedade Brasileira de Hepatologia, entre 30% e 40% dos pacientes não tratados podem desenvolver formas crônicas da doença ao longo da vida.

A prevenção varia conforme o tipo de hepatite. A vacina contra a hepatite B é recomendada para toda a população, especialmente profissionais de saúde, pessoas que convivem com HIV, pacientes renais crônicos, imunossuprimidos e indivíduos com múltiplos parceiros sexuais. Já a imunização contra a hepatite A é indicada para crianças, homens que fazem sexo com homens e viajantes para regiões endêmicas.

Além da vacinação, especialistas recomendam evitar o compartilhamento de objetos perfurocortantes, como lâminas de barbear, alicates de unha, escovas de dente, seringas e agulhas, além do uso de preservativos nas relações sexuais, medida essencial para reduzir a transmissão da hepatite B.

A realização de testes também é considerada uma das principais estratégias para controlar a doença. Segundo Adriano Moraes, toda pessoa deve realizar, ao menos uma vez na vida, exames para hepatites B e C, especialmente quem tem mais de 40 anos. A testagem rápida é indicada principalmente para públicos prioritários, como pessoas vivendo com HIV, usuários de drogas injetáveis ou inaladas, homens que fazem sexo com homens, gestantes, profissionais expostos ao sangue, pessoas privadas de liberdade e indivíduos com tatuagens, piercings ou alterações persistentes nas enzimas hepáticas.

No caso das gestantes, o diagnóstico precoce é ainda mais importante. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) destaca que as hepatites B e C podem ser transmitidas da mãe para o bebê durante a gestação ou no parto. Exames de sangue realizados no pré-natal permitem identificar precocemente a infecção e adotar medidas para reduzir o risco de transmissão.

“O grande problema da transmissão vertical é que o bebê contaminado tem uma chance muito maior de desenvolver hepatite crônica, o que pode comprometer sua saúde no futuro. Por isso, prevenir essa transmissão é uma prioridade da assistência pré-natal”, afirma o ginecologista Regis Kreitchmann.

Entre os principais desafios para o enfrentamento da doença no Brasil, a Sociedade Brasileira de Hepatologia aponta a baixa cobertura vacinal, a dificuldade de acesso aos exames, a demora no encaminhamento para especialistas, as desigualdades regionais e o abandono do tratamento, principalmente entre pessoas privadas de liberdade e usuários de drogas ilícitas.

Dados do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, mostram que o país registrou 826.292 casos entre 2000 e 2024. A hepatite C respondeu por 41,5% das notificações, seguida pela hepatite B (36,6%) e pela hepatite A (21,2%). No mesmo período, foram contabilizados quase 50 mil óbitos relacionados às hepatites virais, sendo a hepatite C responsável por mais de 75% dessas mortes.

As formas de transmissão variam conforme o tipo da doença. As hepatites A e E são transmitidas principalmente por água ou alimentos contaminados, embora a hepatite A também possa ser transmitida por práticas sexuais com contato fecal-oral. Já as hepatites B, C e D são transmitidas pelo contato com sangue e outros fluidos corporais infectados, por relações sexuais desprotegidas e pela transmissão da mãe para o filho durante a gestação.

Como parte da estratégia nacional para eliminar as hepatites virais até 2030, o Ministério da Saúde disponibiliza um guia com diretrizes e ações voltadas à prevenção, ampliação da testagem e acesso ao tratamento em todo o país.