sábado, 20 de junho de 2026 19:19
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Projeto de canabidiol oferece suporte a famílias de crianças neurodivergentes

Foto de Shelby Ireland na Unsplash

 

Iniciativa já realizou mais de 120 consultas gratuitas, distribuiu óleos de CBD e busca criar uma rede permanente de atendimento para moradores da ilha

A rotina da professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, moradora de Fernando de Noronha, era marcada por desafios constantes. Mãe solo de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de suporte 2 e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ela enfrentava crises frequentes de agitação e agressividade do filho, ao mesmo tempo em que precisava conciliar os cuidados com outro filho e as responsabilidades profissionais.

A sobrecarga acabou afetando sua própria saúde. Segundo Rayane, a intensa rotina de cuidados levou ao desenvolvimento de ansiedade generalizada e problemas relacionados ao sono. A situação começou a mudar em março deste ano, quando seu filho iniciou tratamento à base de canabidiol (CBD), composto extraído da cannabis, apresentando redução significativa das crises comportamentais.

O tratamento foi viabilizado pelo Projeto Noronha, iniciativa criada pela Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), pela Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e pela Administração Distrital da ilha. Em dois mutirões realizados em fevereiro e maio deste ano, o programa promoveu 126 consultas médicas gratuitas e distribuiu 221 frascos de óleo de canabidiol para moradores.

Agora, a iniciativa avança para uma nova etapa com a construção de uma sede permanente em um terreno cedido pela Administração de Fernando de Noronha. O espaço deverá oferecer acompanhamento contínuo, orientação e acolhimento para famílias neuroatípicas da região.

De acordo com Alexandre Assis, diretor da Abecmed, o diferencial do projeto é a continuidade do atendimento. Segundo ele, ao contrário da maioria dos mutirões de saúde realizados no país, que acontecem apenas uma vez, a proposta é retornar periodicamente à ilha e consolidar uma rede permanente de suporte às famílias.

Além das crianças, o projeto também direciona atenção às mães cuidadoras. Um dos idealizadores da iniciativa, Ladislau Porto, destaca que muitas mulheres acabam enfrentando sozinhas a responsabilidade pelos filhos com necessidades especiais e frequentemente não encontram apoio quando também precisam de cuidados.

Um exemplo é o de Rebeca Allen, presidente da associação de mães do arquipélago. Mãe de uma criança com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial, ela desenvolveu depressão e transtorno de ansiedade generalizada em razão da sobrecarga. Após iniciar o tratamento com canabidiol, em fevereiro deste ano, relatou melhora na qualidade do sono, no controle da ansiedade e na organização da rotina. O filho também apresentou redução da agressividade e melhor adaptação às terapias e ao ambiente escolar.

A iniciativa busca responder a um problema estrutural de saúde pública em Fernando de Noronha. O arquipélago conta apenas com o Hospital São Lucas para atendimentos públicos de média complexidade. Casos mais complexos precisam ser encaminhados ao continente, principalmente para Recife, distante cerca de 545 quilômetros da ilha.

Dados do relatório do segundo mutirão realizado em maio apontam que 70,6% dos pacientes atendidos procuraram assistência para questões relacionadas à saúde mental. Entre os sintomas mais frequentes estavam ansiedade, insônia, dor crônica, alterações de humor, crises de pânico, bruxismo e dificuldades de concentração. Também foram registrados diversos casos de TEA, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento.

Especialistas envolvidos no projeto destacam os benefícios terapêuticos do canabidiol. O neurologista Eduardo de Sá Faveret explica que os canabinoides possuem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, podendo auxiliar em diversas condições neurológicas e psiquiátricas. No caso do autismo, o CBD contribui para reduzir agressividade, agitação e problemas de sono sem causar sedação excessiva.

O psiquiatra Wilson Lessa Junior ressalta que, diferentemente de alguns medicamentos tradicionalmente utilizados no tratamento de sintomas associados ao TEA, o canabidiol tende a preservar a capacidade da criança de participar ativamente das terapias multidisciplinares, consideradas fundamentais para o desenvolvimento.

Além do atendimento clínico, o Projeto Noronha pretende ampliar pesquisas sobre os impactos sociais, econômicos e de saúde relacionados ao uso medicinal da cannabis na população da ilha. A expectativa é que os dados coletados contribuam para o desenvolvimento de novas estratégias de cuidado e políticas públicas voltadas à saúde mental e ao atendimento de pessoas neurodivergentes em regiões de difícil acesso.