Vírus sincicial respiratório avança no Brasil e preocupa especialistas

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Crescimento dos casos de SRAG ligados ao VSR acende alerta, especialmente entre bebês e idosos com comorbidades

O aumento recente dos casos de Influenza A tem chamado atenção no Brasil, mas outro agente infeccioso também preocupa autoridades de saúde: o vírus sincicial respiratório. Ainda pouco conhecido pela população, o vírus já responde por uma parcela significativa das infecções respiratórias graves no país.

Dados do Ministério da Saúde indicam que, no primeiro trimestre deste ano, o VSR foi responsável por 18% dos casos de síndrome respiratória aguda grave com identificação viral confirmada. A tendência de crescimento se mantém: segundo o boletim InfoGripe, da Fiocruz, a proporção passou de 14% entre fevereiro e março para 19,9% no período de março a abril.

Levantamentos de laboratórios privados reforçam o avanço. Na semana encerrada em 4 de abril, 38% dos testes positivos para vírus respiratórios detectaram o VSR — um aumento significativo em relação ao início de março, conforme dados do Instituto Todos pela Saúde.

Especialistas alertam, no entanto, que os números podem estar subestimados. A pneumologista Rosemeri Maurici, da Universidade Federal de Santa Catarina, afirma que a testagem ainda é limitada e que muitos casos graves não têm o agente causador identificado. “Esses dados são apenas a ponta do iceberg”, ressalta.

Entre os cerca de 27,6 mil registros de SRAG no primeiro trimestre, apenas um terço teve confirmação laboratorial do vírus responsável. Além disso, quase 17% dos casos sequer foram testados, o que dificulta a real dimensão do problema.

Tradicionalmente associado à bronquiolite em bebês, o VSR ainda é pouco reconhecido como ameaça para adultos e idosos. De fato, a maioria dos casos graves ocorre em crianças pequenas: dos 1.651 registros entre janeiro e março, 1.342 foram em menores de dois anos. No entanto, especialistas destacam que, em adultos, a detecção é mais difícil devido à rápida redução da carga viral, o que pode distorcer as estatísticas.

Quando se observa a mortalidade, o cenário se equilibra mais entre faixas etárias. Das 27 mortes registradas neste ano, 17 ocorreram em bebês e sete em idosos com mais de 65 anos. Para a geriatra Maisa Kairalla, fatores como envelhecimento e doenças crônicas aumentam significativamente o risco. “A imunossenescência reduz a capacidade de resposta do organismo, tornando os idosos mais vulneráveis”, explica.

Estudos apontam que pacientes idosos infectados pelo VSR têm 2,7 vezes mais chance de desenvolver pneumonia e o dobro de risco de necessitar de internação em UTI ou evoluir para óbito, em comparação com casos de influenza.

Outras condições de saúde também agravam o quadro. Doenças cardiovasculares, diabetes e enfermidades respiratórias crônicas, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), elevam o risco de complicações. Segundo especialistas, a infecção viral pode desencadear inflamação sistêmica, aumentando a probabilidade de eventos como infarto e acidente vascular cerebral.

A prevenção por meio da vacinação já é uma realidade, mas ainda com acesso limitado. Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece imunização contra o VSR apenas para gestantes, com o objetivo de proteger os bebês nos primeiros meses de vida. Para adultos, as vacinas estão disponíveis apenas na rede privada.

Entidades médicas recomendam a vacinação para pessoas entre 50 e 69 anos com comorbidades e para todos os idosos a partir dos 70 anos. Especialistas defendem a ampliação do acesso no sistema público, com indicação à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

Diante do avanço dos casos e da subnotificação, médicos reforçam a importância da vigilância, do diagnóstico precoce e da imunização como principais estratégias para conter o impacto do vírus no país.