Alimentos e medicamentos: combinação pode afetar eficácia e aumentar riscos no tratamento

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Especialista alerta que orientações como tomar remédio em jejum ou evitar álcool são essenciais para garantir segurança e efeito terapêutico

Tomar um medicamento “em jejum”, “com comida” ou evitar bebidas alcoólicas pode parecer apenas uma recomendação genérica, mas essas orientações são fundamentais para que o tratamento funcione corretamente. Alimentos e bebidas podem interferir diretamente na forma como o organismo absorve, metaboliza e tolera um remédio, alterando sua eficácia e aumentando o risco de efeitos adversos.

Segundo o médico Leonardo Catizani, da clínica Tivolly, especializada em endocrinologia e nutrologia, essa interferência pode ocorrer em diferentes etapas do funcionamento do medicamento no organismo.

“Em alguns casos, a presença de alimento faz com que o medicamento não seja absorvido da forma correta, reduzindo o efeito. Em outros, a combinação aumenta a concentração do medicamento no sangue e eleva o risco de reações adversas”, explica.

Como a alimentação interfere no efeito dos remédios

A interação entre alimentos e medicamentos pode acontecer principalmente no intestino e no fígado. No intestino, certos alimentos podem dificultar a absorção do medicamento, fazendo com que menos substância ativa chegue à corrente sanguínea.

Já no fígado — órgão responsável por grande parte do metabolismo dos remédios — o que foi consumido pode alterar a forma como o medicamento é processado. Isso pode diminuir o efeito esperado do tratamento ou, ao contrário, aumentar a concentração da substância no organismo e favorecer efeitos colaterais.

Mesmo quando a quantidade absorvida não muda, a alimentação pode influenciar a tolerância do organismo, provocando sintomas como náusea, azia ou sonolência.

Combinações comuns que exigem atenção

Algumas interações entre alimentos e medicamentos são relativamente frequentes. Um exemplo clássico envolve o consumo de leite e derivados junto com determinados antibióticos, o que pode reduzir significativamente a absorção do remédio.

Outro caso conhecido é o da toranja, também chamada de grapefruit, que pode interagir com medicamentos usados para colesterol, pressão arterial e ansiedade, aumentando o risco de efeitos colaterais.

Em tratamentos com anticoagulantes, o médico alerta que alimentos ricos em vitamina K devem ser consumidos com regularidade e sem grandes variações. Mudanças bruscas na ingestão dessa vitamina podem interferir na eficácia do tratamento.

Produtos naturais também merecem atenção. Alguns chás e suplementos naturais podem diminuir o efeito de medicamentos importantes, inclusive anticoncepcionais. O alcaçuz, quando consumido em excesso, pode elevar a pressão arterial e provocar alterações nos níveis de potássio, interferindo em medicamentos cardíacos.

Por que cada pessoa reage de forma diferente

A mesma combinação de alimento e medicamento pode gerar efeitos diferentes entre as pessoas. Isso ocorre porque cada organismo metaboliza substâncias de maneira própria.

Fatores como genética, idade, peso, funcionamento dos rins e do fígado, presença de outras doenças, uso de diferentes medicamentos e até a composição da flora intestinal podem influenciar na resposta do organismo.

Na prática, isso explica por que um alimento pode não causar qualquer problema em uma pessoa e, em outra, intensificar efeitos colaterais ou reduzir a eficácia do tratamento.

Álcool e medicamentos: uma das combinações mais perigosas

Entre as interações mais preocupantes está a mistura de álcool com medicamentos. Mesmo pequenas quantidades de bebida alcoólica podem potencializar os efeitos de algumas substâncias.

Medicamentos que atuam no sistema nervoso — como remédios para ansiedade, insônia, antidepressivos e alguns antialérgicos — podem provocar sonolência excessiva, perda de reflexos e maior risco de quedas quando combinados com álcool.

Além disso, anti-inflamatórios e aspirina associados ao consumo de bebidas alcoólicas aumentam o risco de gastrite e sangramentos no sistema digestivo. Alguns remédios para diabetes também podem provocar quedas perigosas da glicose no sangue quando combinados com álcool.

Erros comuns no horário da medicação

Ignorar orientações como tomar o remédio em jejum ou após as refeições é um dos erros mais comuns no tratamento medicamentoso.

Quando o medicamento deve ser ingerido em jejum, geralmente é porque a presença de alimentos prejudica sua absorção. Já remédios indicados para uso junto ou após as refeições costumam ter melhor absorção nessas condições ou provocar menos irritação no estômago.

“O erro mais frequente é não respeitar o horário e achar que não faz diferença. Em muitos casos, faz toda a diferença para o efeito do tratamento”, afirma o médico.

Cafeína e energéticos também podem interferir

Bebidas com cafeína, como café, chá e energéticos, também podem intensificar efeitos em quem utiliza determinados medicamentos. Como a cafeína é estimulante, ela pode aumentar sintomas como tremores, ansiedade, palpitações e dificuldade para dormir em pessoas que usam remédios que estimulam o sistema nervoso ou o coração.

Os energéticos exigem atenção ainda maior por geralmente conterem doses elevadas de cafeína e outras substâncias estimulantes.

Grupos com maior risco

Alguns grupos são mais vulneráveis a problemas relacionados à combinação entre alimentos e medicamentos. Idosos, pessoas com doenças cardíacas, histórico de quedas ou que utilizam vários medicamentos ao mesmo tempo estão entre os mais suscetíveis.

Nesses casos, interações podem provocar queda de pressão, tontura, desmaios e aumentar o risco de acidentes ou complicações graves.

Por isso, especialistas recomendam que pacientes não alterem por conta própria a alimentação ou os horários de medicação e busquem orientação médica sempre que houver dúvidas, especialmente em tratamentos contínuos.