Lula articula candidatura de Haddad em São Paulo

 

Presidente busca definir papéis de Fernando Haddad e Geraldo Alckmin em meio a cenário desafiador contra Tarcísio e possível embate com Flávio Bolsonaro

 

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reunirá nesta semana com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para definir os papéis de ambos nas eleições de 2026, especialmente no cenário paulista.

O movimento faz parte de uma estratégia para “destravar” o palanque no maior colégio eleitoral do país, São Paulo, onde o PT avalia ser fundamental montar uma chapa competitiva para impulsionar a tentativa de reeleição de Lula. No estado, o grupo governista projeta um confronto duro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que deve ter apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O peso de São Paulo

A aposta petista é repetir — ou ampliar — o desempenho de 2022. Naquele ano, Haddad obteve 44,73% dos votos no segundo turno da disputa ao Palácio dos Bandeirantes, registrando a maior votação da história do PT no estado, embora tenha sido derrotado por Tarcísio.

Apesar de o PT nunca ter governado São Paulo, Haddad venceu na capital, revertendo simbolicamente a derrota sofrida em 2016, quando tentou a reeleição à Prefeitura e foi eliminado ainda no primeiro turno. Em 2022, Lula também teve desempenho expressivo nas grandes metrópoles, fator considerado decisivo para a vitória presidencial.

Em entrevista ao portal UOL, Lula ressaltou a importância estratégica do estado. “Temos muito voto em São Paulo e temos condições de ganhar a eleição no estado”, afirmou, acrescentando que Haddad e Alckmin “têm um papel a cumprir”.

Especialistas ouvidos pela revista IstoÉ apontam que, em eleições nacionais, o peso do colégio paulista amplia o alcance de qualquer candidatura presidencial. Um palanque forte no estado pode potencializar votos em escala significativa.

O fator Tarcísio

O cenário, porém, é distinto do de 2022. Hoje, Tarcísio ocupa o Palácio dos Bandeirantes, apresenta bons índices de aprovação e lidera pesquisas de intenção de voto para renovar o mandato. Além disso, tem buscado ampliar alianças para além do bolsonarismo, dialogando com partidos como PSDB, MDB e União Brasil.

O governador já declarou que dará palanque a Flávio Bolsonaro em São Paulo, o que poderia consolidar uma dobradinha eleitoral no estado. Publicamente, lideranças petistas afirmam que o objetivo principal é vencer a disputa estadual, mas admitem a relevância de evitar que o adversário amplie influência sobre o eleitorado paulista.

Para o PT, a eventual candidatura de Haddad reforçaria a associação direta com Lula e ajudaria a manter ou ampliar a votação presidencial na capital e em regiões estratégicas.

Resistência e cálculo político

O principal entrave, no entanto, é o próprio Haddad. O ministro já declarou em diferentes ocasiões que não pretende disputar cargo eletivo em 2026, defendendo que pode contribuir mais permanecendo à frente da Fazenda e atuando na campanha presidencial.

Nos bastidores, parte do partido teme que uma nova derrota — após os reveses de 2016 e 2022 — desgaste um dos quadros mais relevantes da legenda, frequentemente citado como potencial sucessor de Lula.

Analistas ponderam, contudo, que derrotas eleitorais não necessariamente comprometem trajetórias políticas. O próprio Lula foi derrotado três vezes antes de vencer a eleição presidencial em 2002.

Caso aceite a candidatura, Haddad enfrentará um desafio adicional: a tradição de reeleição de governadores em São Paulo, fator que historicamente favorece ocupantes do cargo.

A decisão, portanto, envolve mais do que cálculos eleitorais imediatos. Trata-se de definir o desenho do palanque paulista e o peso que ele terá na estratégia nacional do PT em 2026.