
Em viagem à Índia, presidente também reforça papel estratégico do Brics e propõe uso de moedas locais no comércio internacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que a regulação da Inteligência Artificial (IA) seja conduzida por “uma instituição multilateral com o porte das Nações Unidas”, de modo a garantir que a tecnologia beneficie toda a sociedade, e não apenas “um ou dois donos de grandes plataformas”. A declaração foi feita nesta sexta-feira (20), durante entrevista ao programa India Today, na Índia, onde o presidente cumpre agenda oficial.
Segundo Lula, é necessária uma regulação rígida e global para evitar abusos e proteger principalmente crianças, adolescentes e mulheres. Para ele, os riscos do uso indevido da IA são elevados e podem provocar danos à vida íntima das pessoas, além de estimular violência.
“Há dois ou três proprietários de grandes plataformas que não desejam qualquer tipo de regulação. Mas, se perdermos o controle, isso não será bom para a humanidade”, afirmou. O presidente ressaltou que a tecnologia pode elevar padrões de vida, especialmente nas áreas de saúde e educação, desde que esteja a serviço da sociedade civil e sob controle público.
Brics e nova arquitetura internacional
Durante a entrevista, Lula também destacou o papel do BRICS como representante do chamado sul global. Criado em 2009, o bloco reúne Brasil, Rússia, Índia e China como fundadores, com a entrada posterior da África do Sul e, mais recentemente, de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.
Para o presidente, o Brics é uma das iniciativas mais relevantes das últimas décadas, por propor uma nova abordagem institucional. Ele comparou o grupo a outros fóruns internacionais, como o G7 e o G20, afirmando que o bloco representa países que somam mais da metade da população mundial.
Lula defendeu que o Brics pode inovar nas estruturas globais, sem reproduzir modelos do século XX, como os do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
Comércio sem dólar e relação com os EUA
O presidente voltou a defender que acordos comerciais entre países do bloco possam ser feitos com moedas locais, reduzindo a dependência do dólar norte-americano. “Não é necessário que um acordo entre Brasil e Índia seja feito em dólares. Podemos usar nossas próprias moedas”, disse, reconhecendo que a transição exige cautela e negociação gradual.
Ao comentar a relação com os Estados Unidos, Lula afirmou manter diálogo aberto com o presidente Donald Trump. Ele demonstrou disposição para negociar temas como minerais críticos e terras raras, desde que a soberania brasileira seja respeitada.
“O Brasil possui muitos minerais críticos, mas não queremos transformar nosso país em um santuário da humanidade”, afirmou, ao defender que a exploração ocorra sem imposições externas.
Parceria com a Índia
Lula também destacou o fortalecimento das relações entre Brasil e Índia, ressaltando que levou 300 empresários brasileiros à viagem oficial. Segundo ele, o objetivo é ampliar parcerias comerciais, culturais e políticas, reforçando o multilateralismo.
“Queremos aprender com a Índia e compartilhar experiências. O que buscamos são acordos que beneficiem os povos, e não apenas ganhos isolados”, concluiu.









