
Pesquisa com mais de 2.800 idosos indica que treinamento cerebral focado em velocidade de processamento teve impacto significativo; especialistas pedem cautela e reforçam importância de hábitos saudáveis
Um tipo específico de treinamento cerebral computadorizado pode reduzir em cerca de 25% o risco de demência em pessoas com mais de 65 anos, segundo um estudo de longo prazo publicado no periódico Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions. O dado faz parte dos resultados do estudo ACTIVE (Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly), iniciado em 1998 nos Estados Unidos.
O achado surpreendeu os pesquisadores: não foram os exercícios tradicionais de memória ou de resolução de problemas que demonstraram impacto na redução do risco, mas sim um jogo interativo focado em velocidade de processamento e atenção dividida.
Como funciona o jogo
O treinamento consiste em uma tarefa computadorizada em que o participante deve identificar rapidamente um de dois veículos (como carro ou trator) exibidos em diferentes cenários — desértico, urbano ou rural — enquanto, simultaneamente, localiza uma placa da Rota 66 que aparece brevemente na periferia da tela, cercada por placas distratoras.
Para acertar, o jogador precisa clicar corretamente tanto no veículo quanto na posição da placa. À medida que o desempenho melhora, as imagens passam a desaparecer cada vez mais rápido, tornando a tarefa progressivamente mais desafiadora.
“É o que chamamos de tarefa de atenção dividida, na qual você não tem uma estratégia consciente de como melhorar”, explicou Marilyn Albert, coautora do estudo, professora de neurologia da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e diretora do Centro de Pesquisa da Doença de Alzheimer da instituição. “Você está apenas tentando fazer o melhor que pode para descobrir como dividir sua atenção.”
Segundo ela, o treinamento é adaptativo: quanto melhor o desempenho, maior o grau de dificuldade.
O estudo
O ACTIVE acompanhou mais de 2.800 voluntários, com idade média de 74 anos, todos livres de demência no início da pesquisa e vivendo de forma independente em seis comunidades dos Estados Unidos. Um quarto grupo, que não recebeu qualquer treinamento, serviu como controle.
Os participantes foram divididos em três modalidades de treinamento cognitivo:
Memória: técnicas para memorizar listas de palavras e textos;
Raciocínio: resolução de problemas e identificação de padrões;
Velocidade de processamento com atenção dividida: o jogo interativo computadorizado.
O programa inicial foi intenso: sessões presenciais duas vezes por semana, com duração de 60 a 75 minutos, durante cinco semanas. Parte dos participantes recebeu ainda sessões de reforço no primeiro e no terceiro ano, totalizando 22,5 horas de treinamento.
Vinte anos depois, ao cruzar os dados com registros do Medicare, os pesquisadores observaram que apenas o grupo que realizou o treinamento de velocidade com as sessões de reforço apresentou redução de 25% nos diagnósticos de demência em comparação ao grupo controle.
“O benefício foi observado apenas nas pessoas que fizeram tanto o treinamento inicial quanto as sessões de reforço”, destacou Albert.
Aprendizagem implícita e reserva cognitiva
O jogo utiliza o que os especialistas chamam de aprendizagem implícita — aquisição automática de habilidades sem plena consciência do que está sendo aprendido. Esse tipo de aprendizado envolve áreas cerebrais diferentes daquelas usadas na memorização ou na resolução consciente de problemas.
Exemplos cotidianos incluem andar de bicicleta ou amarrar os cadarços — habilidades que permanecem mesmo após anos sem prática.
Segundo os pesquisadores, o treinamento pode estimular maior conectividade entre neurônios e aumentar a plasticidade cerebral. O caráter adaptativo do jogo também pode contribuir para fortalecer a chamada reserva cognitiva — a capacidade do cérebro de manter o funcionamento mesmo diante de danos associados ao envelhecimento ou a doenças como o Alzheimer.
Há ainda hipóteses de que o treinamento ajude a preservar a acetilcolina, neurotransmissor fundamental para atenção e memória.
Cautela na interpretação
Apesar dos resultados promissores, especialistas que não participaram do estudo recomendam prudência.
Walter Boot, professor de geriatria da Weill Cornell Medicine, afirmou que ainda não está claro como o desempenho melhorado em uma tarefa específica se traduz diretamente em menor risco de demência.
Já a Dra. Susan Kohlhaas, da Alzheimer’s Research UK, destacou que os diagnósticos foram identificados por registros de saúde, e não por avaliações clínicas detalhadas, o que limita conclusões definitivas sobre os mecanismos envolvidos.
Ela ressaltou, no entanto, que treinamentos de memória e raciocínio — embora não tenham reduzido o risco de demência — mostraram benefícios na melhoria da autonomia e das habilidades cognitivas no dia a dia.
Parte de um conjunto maior de cuidados
Para especialistas, o treinamento cognitivo é apenas uma peça no quebra-cabeça da saúde cerebral.
“O Alzheimer e outras demências são distúrbios complexos. Não basta jogar um jogo no celular ou fazer apenas uma coisa”, afirmou o neurologista Richard Isaacson, pesquisador da área de prevenção do Alzheimer.
Segundo ele, a proteção do cérebro depende de um conjunto de fatores: alimentação equilibrada, atividade física regular, controle da pressão arterial, sono adequado, redução do estresse e manutenção de vínculos sociais.
Enquanto novas pesquisas buscam confirmar e explicar os resultados, o estudo reforça a importância de manter o cérebro ativo — e sugere que a forma como ele é desafiado pode fazer diferença no envelhecimento cognitivo.









