Tesla aposta em robôs humanoides e redesenha seu futuro além dos carros elétricos

Com vendas em queda e mais concorrência, Elon Musk anuncia mudança estratégica e coloca o Optimus no centro do negócio

A Tesla, que dominou a indústria de veículos elétricos em meados da década de 2010 ao transformar carros elétricos em símbolos de desempenho e inovação, enfrenta agora um cenário mais desafiador. Em 2025, a empresa registrou uma queda recorde de 9% nas vendas, pressionada pelo avanço das montadoras chinesas e pelo fim do crédito fiscal para veículos elétricos nos Estados Unidos. Diante desse contexto, o CEO Elon Musk decidiu dobrar a aposta em uma visão ambiciosa: o futuro da Tesla estaria nos robôs humanoides, e não mais nos carros.

Durante a teleconferência de resultados da empresa, realizada na quarta-feira (28), Musk anunciou que a Tesla irá descontinuar os modelos S e X para converter o espaço de produção da fábrica de Fremont, na Califórnia, em uma unidade dedicada ao robô humanoide Optimus. Segundo o executivo, o objetivo de longo prazo é alcançar a produção de 1 milhão de robôs por ano nesse mesmo espaço.

Musk descreve o Optimus como uma tecnologia capaz de transformar a sociedade. De acordo com ele, os robôs poderão realizar tarefas domésticas, atuar em fábricas, executar procedimentos médicos e até ajudar a eliminar a pobreza global, tornando o trabalho humano opcional. “Cada ser humano na Terra terá seu próprio R2-D2 ou C-3PO”, afirmou o empresário, em referência aos robôs da saga Star Wars, ao dizer que o Optimus seria ainda mais avançado.

A visão futurista, no entanto, encontra forte ceticismo. Críticos apontam que a aposta nos robôs pode desviar o foco do principal negócio da Tesla, justamente em um momento de maior competição no mercado automotivo. Além disso, a empresa não está sozinha nessa corrida: gigantes como Boston Dynamics, Hyundai, Google DeepMind, além de companhias de tecnologia como Nvidia, Qualcomm e Intel, também investem pesadamente em robôs humanoides.

Atualmente, mais de 90 empresas já possuem algum tipo de robô humanoide em desenvolvimento ou em operação, segundo dados da McKinsey & Company. Estimativas de consultorias como McKinsey, Goldman Sachs e Morgan Stanley indicam que esse mercado pode movimentar entre US$ 370 bilhões até 2040 e US$ 5 trilhões até 2050.

Apesar da concorrência, especialistas reconhecem que a Tesla possui vantagens importantes, como a experiência em baterias, motores elétricos, mecanismos e produção em larga escala. Para Ken Goldberg, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, essa capacidade industrial pode dar à empresa uma vantagem de custos relevante. Um relatório da Goldman Sachs sugere que a Tesla poderia lucrar milhares de dólares por robô, especialmente se utilizar o Optimus internamente antes de vendê-lo ao mercado.

Ainda assim, os desafios técnicos são enormes. Robôs humanoides estão entre as máquinas mais complexas já concebidas. Musk admitiu que a empresa ainda enfrenta dificuldades no design final do hardware, especialmente nas mãos e braços do robô, estruturas notoriamente difíceis de replicar com precisão. Diferentemente dos humanos, robôs têm dificuldades para lidar com objetos variados, como superfícies escorregadias ou materiais irregulares.

O histórico de previsões otimistas de Musk também alimenta a desconfiança. O empresário já prometeu carros totalmente autônomos até 2018 e missões tripuladas a Marte no mesmo período — metas que não se concretizaram. Para especialistas, a adoção ampla de robôs humanoides deve levar ao menos uma década.

Além dos obstáculos tecnológicos, Musk enfrenta desgaste de imagem. Seu posicionamento político e apoio ao presidente Donald Trump tornaram o CEO uma figura polarizadora, resultando em protestos e atos de vandalismo contra concessionárias da Tesla. Analistas questionam se consumidores estariam dispostos a levar um robô humanoide para casa associado a uma figura tão controversa.

Mesmo diante das dúvidas, Musk mantém o discurso confiante. Ele reconheceu a existência de críticos, mas afirmou que a Tesla está acostumada a enfrentar desafios complexos. Para especialistas, no entanto, a revolução prometida não será imediata. “Elon é um visionário, mas algumas promessas levam mais tempo do que a engenharia consegue acompanhar”, resume Goldberg. O futuro desenhado por Musk pode chegar — mas dificilmente da noite para o dia.