quarta-feira, 24 de junho de 2026 17:17
Banner educativo
Home Notícias Manchetes PEC da Blindagem reacende debate sobre impunidade no Congresso

PEC da Blindagem reacende debate sobre impunidade no Congresso

 

Proposta busca resgatar autorização prévia para processar parlamentares, prática que caiu em 2001 após escândalos de corrupção e crimes envolvendo políticos

A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 3 de 2021, conhecida como PEC da Blindagem ou PEC das Prerrogativas, trouxe de volta um debate que marcou os anos 1990: a proteção parlamentar contra processos criminais. A proposta prevê que deputados e senadores só possam ser processados judicialmente com autorização das próprias casas legislativas, em votação secreta.

O mecanismo já existiu na Constituição de 1988, criado para evitar perseguições políticas após a ditadura militar. Na prática, porém, ele garantiu impunidade a parlamentares acusados de crimes graves, como corrupção, homicídios e até tráfico de drogas. A situação levou à aprovação da Emenda Constitucional 35, em dezembro de 2001, que acabou com a exigência de aval prévio do Congresso.

A jornalista Tereza Cruvinel, que acompanhou o processo desde a Constituinte até a aprovação da emenda, relembra que quase 300 pedidos do Supremo Tribunal Federal (STF) para processar parlamentares foram negados até 2001. “Houve uma confusão entre imunidade e impunidade. A pressão popular contra casos emblemáticos forçou a mudança”, destacou.

Entre os episódios que marcaram o debate estavam o do “deputado da motosserra” Hildebrando Pascoal, condenado por tráfico de drogas e homicídios brutais; o do deputado Sérgio Naya, responsabilizado pelo desabamento do edifício Palace 2, no Rio de Janeiro; e o do senador Ronaldo Cunha Lima, que atirou contra um rival político em 1993 e só foi processado anos depois, quando a emenda já estava em vigor.

Segundo especialistas, a tentativa de retomar o modelo anterior pode abrir espaço para abusos e dificultar investigações sobre o uso irregular de emendas parlamentares. A analista legislativa Orlange Maria Brito afirmou que a proteção originalmente pensada para evitar perseguições políticas “foi desviada de sua correta utilização, servindo como escudo para práticas criminosas”.

Defensores da PEC, como o relator Claudio Cajado (PP-BA), argumentam que a proposta não significa impunidade, mas proteção ao mandato contra interferências indevidas do Judiciário. Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou que o Congresso não atuaria para barrar processos de parlamentares criminosos.

Enquanto isso, críticos temem que a PEC represente um retrocesso, trazendo de volta um cenário de blindagem que a sociedade já rejeitou no início dos anos 2000.