segunda-feira, 2 de novembro de 2026 15:15
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André Lara Resende critica juros altos e propõe mudanças na política econômica

© Geraldo Magela/Agência Senado

 

 

Economista que participou da elaboração do Plano Real atribui parte do desequilíbrio fiscal aos juros elevados e defende metas conjuntas para a política fiscal e monetária.

 

 

 

Um artigo do economista André Lara Resende, integrante da equipe que elaborou o Plano Real, ganhou destaque ao questionar a política de juros adotada pelo Banco Central (BC). No texto, o ex-diretor da autoridade monetária afirma que as taxas elevadas são uma das principais causas do desequilíbrio fiscal brasileiro e defende a criação de novas regras para as despesas públicas e os juros no país.

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu o economista no artigo Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos, publicado na plataforma Substack.

Formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Lara Resende tem doutorado em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Além de participar da elaboração do Plano Real, atuou em instituições financeiras e presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

No artigo, o especialista questiona a interpretação defendida por representantes do mercado financeiro e pelo Banco Central para justificar a taxa Selic, então indicada em 13,75% ao ano no texto. Segundo levantamento da consultoria Moneyou, o Brasil também ocupava a primeira posição no ranking mundial de juros reais.

O economista critica a ideia de que o principal problema das contas públicas está no excesso de gastos primários, que correspondem às despesas do governo com serviços e políticas públicas, excluindo os pagamentos de juros da dívida.

“Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica”, afirmou.

Dívida pública e impacto dos juros

Lara Resende reconhece problemas na qualidade dos gastos públicos e cita como exemplos as emendas parlamentares, vantagens salariais do Judiciário e isenções tributárias. Apesar disso, argumenta que o déficit primário brasileiro é relativamente pequeno em comparação com o de outros países.

“Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas. A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida”, escreveu.

A dívida pública brasileira passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2022, para aproximadamente 82,9% em agosto de 2026. Diante desse crescimento, analistas do mercado financeiro têm defendido cortes de despesas da União como forma de conter o endividamento.

O economista, no entanto, sustenta que o principal fator de pressão sobre a dívida é o pagamento de juros. Segundo ele, enquanto o resultado primário apresentou déficits relativamente pequenos nos últimos anos, o resultado nominal — que inclui os juros da dívida — permaneceu elevado.

“Nos últimos anos, exceto durante a Covid, o resultado primário foi apenas ligeiramente negativo; já o déficit nominal, puxado pelos juros, foi sempre alto e agora aproxima-se de 10% do PIB”, explicou.

O especialista considera que o crescimento da dívida é insustentável, mas discorda de que a solução esteja concentrada na redução dos gastos primários. Para ele, a diminuição da taxa de juros seria fundamental para reequilibrar as contas públicas.

Nos 12 meses considerados no artigo, as despesas com juros ultrapassaram R$ 1,1 trilhão, o equivalente a 8,9% do PIB.

Banco Central defende juros elevados para controlar a inflação

O Banco Central sustenta que a manutenção de juros elevados é necessária para conter as pressões inflacionárias. A Selic influencia o custo do crédito e o nível de consumo e investimentos: taxas mais altas tendem a desacelerar a atividade econômica e a demanda, contribuindo para reduzir a pressão sobre os preços.

Nas atas do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros, a autoridade monetária aponta fatores como o aquecimento da economia e do mercado de trabalho, a expansão do crédito e a trajetória das contas públicas como elementos que podem pressionar a inflação.

Na última ata mencionada no texto, o Copom destacou que a falta de avanços em reformas estruturais e na disciplina fiscal, além das incertezas sobre a estabilização da dívida pública, pode elevar a taxa de juros necessária para controlar a inflação.

Lara Resende, por outro lado, questiona a ideia de que o Banco Central não teria alternativas aos juros elevados. O economista critica os modelos macroeconômicos convencionais utilizados para orientar a política monetária e contesta a relação entre desemprego e inflação que fundamenta parte dessas análises.

Ele reconhece que uma redução dos juros pode provocar aumento da inflação no curto prazo, mas considera esse efeito transitório.

Proposta de novo regime fiscal e monetário

Como alternativa, o economista propõe a criação de um novo regime fiscal e monetário, com metas de inflação, juros e resultado fiscal definidas conjuntamente e estabelecidas para um horizonte mais longo, de quatro a cinco anos.

A proposta prevê que o Banco Central se comprometa a manter a taxa básica de juros em um intervalo compatível com a meta de inflação, de 3%, e com a taxa de crescimento nominal potencial da economia.

“As metas de inflação seriam anunciadas em conjunto com metas para a taxa básica de juros. O BC se comprometeria a manter a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação, 3%, e taxa de crescimento nominal potencial”, explicou.

Lara Resende também defende a atuação do Banco Central no mercado de câmbio para evitar uma desvalorização mais intensa do real. Segundo ele, as reservas internacionais brasileiras, superiores a US$ 350 bilhões, dariam à autoridade monetária condições para intervir.

A proposta busca substituir a ênfase no corte de despesas por uma estratégia que combine planejamento fiscal de longo prazo e redução dos custos da dívida pública. O economista argumenta que, sem uma queda dos juros para um patamar próximo ao crescimento nominal da economia, não seria possível interromper a trajetória de aumento da dívida em relação ao PIB.

Com informações da Agência Brasil.

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