
Mobilização em frente ao Palácio do Buriti foi marcada por vaias, acusações sem comprovação apresentada publicamente e críticas à condução política do movimento; Celina Leão afirma que mantém diálogo com a categoria
A paralisação dos professores da rede pública do Distrito Federal, realizada na manhã desta quarta-feira (21), em frente ao Palácio do Buriti, ganhou contornos de disputa eleitoral a poucos dias do segundo turno, marcado para domingo (25). O ato, organizado pelo Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), reuniu, segundo estimativas citadas sobre a mobilização, cerca de 450 pessoas e teve a presença do candidato ao Governo do DF Leandro Grass (PT).
Em meio às reivindicações da categoria, episódios durante as manifestações levantaram questionamentos sobre os limites entre a defesa dos interesses dos profissionais da educação e a utilização política de uma pauta sindical. Afinal, os professores foram às ruas para cobrar respostas do governo ou acabaram envolvidos em uma disputa eleitoral que ultrapassa as demandas da categoria?
Denúncia sem provas apresentadas e vaias durante discurso
Uma das cenas que chamaram a atenção ocorreu durante a fala de Vilmara, professora do CED 01 da Estrutural e militante petista. Ela denunciou que policiais militares estariam pedindo votos para candidatos, mas, durante a manifestação, não apresentou publicamente provas ou informações sobre eventuais procedimentos em andamento que permitissem verificar a acusação.
A professora também pediu que os participantes não votassem em Flávio Bolsonaro e Celina Leão (PP), além de defender a desmilitarização das escolas cívico-militares do Distrito Federal. Durante a fala, recebeu vaias ao abordar o posicionamento eleitoral.
O episódio expôs uma contradição: em uma mobilização que deveria concentrar esforços nas reivindicações dos profissionais da educação, o debate eleitoral ganhou espaço e provocou reações entre os próprios participantes.
Denúncias envolvendo agentes públicos devem ser apuradas com seriedade, mas também precisam ser acompanhadas de elementos verificáveis. Da mesma forma, manifestações sindicais podem defender posições políticas, embora seja legítimo questionar quando a disputa partidária passa a ocupar o centro de uma mobilização profissional.
Leandro Grass e a velha tentação de transformar sindicato em palanque

A presença de Leandro Grass no ato reforçou o debate sobre a relação entre sindicalismo e campanha eleitoral. Em plena reta final do segundo turno, a mobilização acabou oferecendo ao candidato uma oportunidade de confrontar publicamente a adversária, Celina Leão.
Durante entrevista, Grass questionou a governadora sobre a atuação de policiais e a ausência de uma reunião com os professores. A abordagem, no entanto, precisa ser confrontada com o histórico de interlocução entre o governo e a representação sindical, em vez de se limitar a acusações feitas em um palanque.
A crítica política que se impõe é direta: até que ponto os interesses dos professores estão no centro dessa mobilização e em que momento a disputa eleitoral passa a falar mais alto?
O risco é conhecido na política brasileira. Categorias profissionais são cortejadas durante campanhas, suas reivindicações ganham visibilidade e seus representantes passam a ocupar o centro do debate. Depois da eleição, porém, as promessas e os compromissos precisam ser cobrados. É justamente aí que a coerência dos candidatos deve ser testada.
A comparação com governos anteriores, como os de Agnelo Queiroz (PT) e Rodrigo Rollemberg (PSB), pode alimentar críticas sobre a relação histórica entre governos e servidores. Mas a responsabilidade de demonstrar eventuais promessas descumpridas cabe a quem faz a acusação. Professores não podem ser tratados como figurantes de uma campanha, tampouco como massa de manobra disponível para interesses partidários.
Celina Leão defende diálogo e questiona uso eleitoral da paralisação
A governadora Celina Leão reconheceu a legitimidade das reivindicações e o direito de manifestação dos profissionais da educação, mas pediu que o movimento não fosse utilizado para fins político-eleitorais a poucos dias da votação.
Segundo Celina, representantes do Sindicato dos Professores do Distrito Federal já foram recebidos, e o governo permanece aberto ao diálogo para ouvir as demandas da categoria.
“Eles me conhecem porque todas as vezes o meu mandato na Câmara Distrital e na Câmara Federal esteve à disposição deles. Eles sabem do nosso compromisso”, declarou.
A manifestação da governadora coloca a discussão em outro patamar: o direito de protestar é legítimo, mas a existência de divergências com o governo não elimina a necessidade de diálogo institucional.
O debate, portanto, exige mais do que discursos de campanha. É necessário verificar quais demandas foram apresentadas, quais respostas foram dadas e o que ainda precisa ser negociado.
Escolas cívico-militares entram na disputa política
A defesa da desmilitarização das escolas também esteve entre os temas levantados durante o ato. O assunto exige debate baseado em resultados educacionais, condições de funcionamento e evidências sobre o desempenho dos estudantes, e não apenas em slogans eleitorais.
Algumas unidades públicas citadas no debate sobre educação, como o CEF 19 de Taguatinga e o CEF 01 do Núcleo Bandeirante, aparecem entre escolas com bons resultados em avaliações educacionais. O Colégio Militar Tiradentes também é mencionado por seu desempenho acadêmico.
Publicações do próprio Sinpro levantam questionamentos

Outro ponto que merece esclarecimento diz respeito à alegação de que o secretário de Educação, Thiago Peixoto, não estaria disposto a sentar à mesa para discutir os interesses da categoria.
Publicação do próprio Sinpro-DF no Instagram informa que a Comissão de Negociação e a Secretaria de Política Educacional do sindicato se reuniram recentemente com representantes da Subsecretaria de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação (Suplav) e da Subsecretaria de Gestão de Pessoas (Sugep).
Entre os assuntos discutidos estavam o Concurso de Remanejamento e o calendário escolar. Segundo o relato apresentado, a Suplav expôs uma proposta de calendário e ressaltou que ainda não havia definição no Senado Federal sobre como os sistemas educacionais deveriam se organizar em relação ao período da Copa do Mundo Feminina de Futebol.

Panfletagem política e a fronteira entre sindicato e campanha
Relatos sobre a presença de panfletos com referências ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Leandro Grass e a críticas à candidatura de Celina Leão acrescentaram combustível à discussão sobre o caráter eleitoral do ato.
Caso uma mobilização sindical seja efetivamente convertida em instrumento de campanha, a crítica é inevitável: reivindicações profissionais não devem servir de atalho para promover candidaturas.
O Sinpro-DF tem o direito de defender posições políticas, assim como os professores têm o direito de apoiar candidatos e participar de manifestações. O problema surge quando não fica claro onde termina a pauta coletiva e onde começa a estratégia partidária.
A poucos dias do segundo turno, essa fronteira precisa ser tratada com transparência. A categoria não é propriedade de sindicato, partido ou candidato algum.
A educação não pode ser figurante da eleição
O episódio desta quarta-feira deixa uma pergunta incômoda para Leandro Grass e para a direção do Sinpro-DF: qual será o resultado concreto da mobilização para os professores e para os estudantes depois do domingo eleitoral?
Se o objetivo é melhorar a educação pública, a resposta precisa aparecer em propostas, negociações documentadas e compromissos que possam ser cobrados independentemente de quem vença a eleição.
Transformar uma reivindicação legítima em espetáculo eleitoral pode render imagens, discursos e repercussão nas redes sociais. Mas não resolve, por si só, os problemas das escolas nem garante melhores condições de trabalho aos educadores.
Professores merecem respeito, estudantes merecem aulas e a comunidade escolar merece saber quais resultados estão sendo buscados. O palanque pode ser desmontado depois da eleição. Os problemas da educação, não.









