segunda-feira, 19 de outubro de 2026 14:14
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Grass acha que o DF tem memória de peixe?

 

 

Entre mudanças de partido, passagem pelo Iphan e promessas eleitorais, candidato do PT enfrenta o desafio de convencer uma população que não costuma viver de lembranças seletivas

 

 

 

Na disputa pelo Palácio do Buriti, o candidato Leandro Grass (PT) parece ter entrado em uma missão que mistura política, malabarismo narrativo e uma dose considerável de fé na memória curta do eleitorado. O problema é que o Distrito Federal não é um laboratório de experiências políticas, muito menos um computador que pode ser reiniciado a cada eleição para apagar o histórico dos candidatos.

A trajetória de Grass merece ser examinada para além dos discursos de campanha. Ele chegou à política distrital pela Rede, passou pelo Partido Verde (PV), disputou o Governo do Distrito Federal e acabou derrotado pelo então ex-governador Ibaneis Rocha. Posteriormente, assumiu a presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), durante o governo Lula, e deixou o cargo em março de 2026. Agora, filiado ao PT, tenta transformar sua trajetória em credencial para governar Brasília.

A pergunta que fica é simples: o eleitor deve avaliar apenas o discurso atual ou também considerar as escolhas, os resultados e as responsabilidades acumuladas ao longo do caminho?

Do patrimônio histórico ao palanque eleitoral

À frente do Iphan, Grass esteve associado à gestão de pautas relacionadas à preservação do patrimônio histórico nacional. Entre os temas que ganharam atenção esteve a recuperação da Praça dos Três Poderes, em Brasília, após os ataques de 8 de janeiro de 2023.

Na ocasião, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, percorreu a área e criticou as condições de conservação do espaço. O episódio trouxe novamente à discussão a necessidade de recuperação e manutenção de um dos locais mais simbólicos da República.

Há três anos à frente do Iphan, Leandro Grass não conseguiu concluir a primeira fase da revitalização da Praça dos Três Poderes, que envolve pisos, drenagem e calçamento, com conclusão prevista para dezembro de 2026. A segunda etapa, voltada aos monumentos, tem previsão de conclusão até junho de 2027. Diante desse cenário, fica a pergunta: se não conseguiu concluir essa etapa da revitalização, Grass estaria preparado para assumir uma eventual gestão do Governo do Distrito Federal (GDF)?

A questão política não é transformar um cronograma de obras em culpa automática de um único dirigente, mas cobrar transparência sobre prazos, execução e resultados de uma instituição pública. Afinal, inaugurações e discursos rendem fotografias; conservação, planejamento e entrega exigem trabalho continuado.

E, quando alguém deixa um cargo público para disputar uma eleição, é natural que sua atuação anterior também entre na conta do eleitor.

A troca de partidos e o teste de coerência

A passagem de Grass pela Rede, pelo PV e, agora, pelo PT também abre espaço para questionamentos sobre identidade política e coerência programática.

Mudar de partido não é crime, nem significa automaticamente falta de convicção. A política brasileira, aliás, oferece um verdadeiro desfile de mudanças de legenda. Mas o eleitor tem todo o direito de perguntar quais ideias permaneceram, quais foram abandonadas e o que motivou cada mudança.

A filiação ao PT, apontada como uma escolha estratégica para a candidatura ao governo do DF, também teria provocado resistências entre setores da própria legenda. A chegada de um nome que não construiu toda a sua trajetória dentro do partido pode gerar disputas por espaço, influência e protagonismo.

Nesse cenário, Grass precisa convencer dois públicos diferentes: os eleitores que ainda não compraram seu projeto e os próprios petistas que podem questionar a escolha de uma candidatura com trajetória partidária relativamente recente na sigla.

É quase um processo seletivo com duas bancas examinadoras: uma dentro do partido e outra espalhada pelas ruas do Distrito Federal. E nenhuma delas é obrigada a aprovar o candidato só porque seu nome foi escolhido pela direção nacional.

O desgaste do PT também entra na disputa

Grass não concorre em um ambiente politicamente neutro. Ao se filiar ao PT, passa a carregar não apenas sua própria trajetória, mas também o histórico, as realizações e os desgastes de uma legenda que ocupa posição central na política brasileira há décadas.

O partido enfrenta desafios de renovação de lideranças, comunicação com as novas gerações e aproximação com segmentos da classe média preocupados com inflação, custo de vida, impostos e segurança pública. Também precisa disputar espaço em uma sociedade na qual as redes sociais, as pautas de costumes e a força de setores conservadores modificaram a dinâmica eleitoral.

Além disso, os escândalos do Mensalão e as controvérsias relacionadas à Operação Lava Jato marcaram profundamente a imagem pública do partido. Os episódios tiveram contextos jurídicos distintos e não autorizam generalizações sobre todos os seus integrantes, mas fazem parte do histórico que adversários e eleitores críticos continuam a invocar.

O desafio de Grass, portanto, vai além de apresentar propostas para o DF. Ele precisa demonstrar por que sua candidatura representa uma alternativa convincente e como pretende responder às críticas dirigidas tanto à sua trajetória quanto ao partido que agora representa.

O eleitor não precisa de mágica, precisa de explicações

Na reta final da disputa pelo Buriti, a tentação de transformar adversários em vilões e candidatos em salvadores costuma aumentar. Mas o eleitorado não é figurante de uma peça publicitária, nem plateia obrigada a aplaudir qualquer discurso.

A população pode reconhecer méritos, apontar falhas, questionar mudanças partidárias e cobrar resultados de quem ocupou cargos públicos. Isso não é perseguição política: é parte elementar da democracia.

Se Leandro Grass quer conquistar a confiança dos brasilienses, precisará apresentar respostas consistentes sobre sua trajetória, sua experiência administrativa e seu projeto para o Distrito Federal. Não basta trocar a legenda, mudar o cenário e esperar que a narrativa anterior desapareça como arquivo colocado na lixeira.

A política não oferece botão de restauração de fábrica. O passado permanece disponível para consulta, o presente exige explicações e o futuro depende da capacidade de convencer.

No fim, a eleição não é um concurso de quem conta a história mais engraçada sobre si mesmo. É uma disputa em que o eleitor decide se acredita — ou não — no que está sendo apresentado. E, ao contrário do que alguns marqueteiros talvez imaginem, a inteligência do brasiliense não precisa de treinamento para desconfiar de promessas: basta que ele faça as perguntas certas.

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