quinta-feira, 17 de setembro de 2026 12:12
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Estados gastam 5 mil vezes mais com polícias do que com políticas para egressos

Foto: Polícia Federal

 

Pesquisa do Justa aponta aumento da desigualdade na distribuição dos recursos de segurança pública entre 2024 e 2025.

Os estados brasileiros destinaram, em 2025, mais de 5 mil vezes mais recursos às polícias do que às políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional. A cada R$ 5.423 gastos com as polícias, foram destinados R$ 1.169 ao sistema prisional e apenas R$ 1 às ações voltadas para egressos.

Os dados fazem parte da nova edição da pesquisa “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros”, realizada pelo centro de pesquisa Justa e apresentada nesta quinta-feira (17), durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O levantamento analisou a distribuição dos recursos de 26 unidades federativas entre as polícias, o sistema prisional e as políticas destinadas a pessoas que deixam o sistema penitenciário. O Acre não forneceu dados para a pesquisa.

Em comparação com a edição anterior, baseada nos gastos de 2024, a desigualdade aumentou. Naquele ano, para cada R$ 4.877 destinados às polícias, foram R$ 1.221 para o sistema penitenciário e R$ 1 para políticas exclusivas para egressos.

Segundo o Justa, os números revelam uma concentração dos investimentos na entrada do sistema de justiça criminal, formando um chamado “funil de investimentos”. A coordenadora de pesquisas da organização, Taciana Santos, afirmou que a priorização das polícias não necessariamente resulta em mais segurança para a população.

“Esse crescimento de gasto com polícias está associado ao crescimento da bancada da bala e do populismo penal na política, como observamos pelo número de candidatos que se elegem instrumentalizando a insegurança como principal bandeira eleitoral”, avaliou.

Gastos com as polícias

Os gastos dos estados analisados com as polícias passaram de R$ 87,5 bilhões, em 2024, para R$ 103,5 bilhões em 2025. A maior parcela ficou com as Polícias Militares (PM), responsáveis pelo patrulhamento e policiamento ostensivo, que concentraram R$ 60,7 bilhões, ou 58,6% do total.

As Polícias Civis receberam R$ 22,2 bilhões, equivalentes a 21,5%, enquanto as Polícias Técnico-Científicas tiveram R$ 2,8 bilhões, ou 2,7%. Outros R$ 17,8 bilhões correspondem a despesas compartilhadas entre as corporações.

Para o Justa, os dados indicam prioridade ao policiamento ostensivo em relação a atividades de investigação e inteligência.

“É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências”, avaliou Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.

Sistema prisional

Os estados analisados gastaram R$ 22,3 bilhões com o sistema prisional em 2025, ante R$ 21,9 bilhões no ano anterior. Segundo estimativa do Justa, cerca de R$ 13,7 bilhões, aproximadamente seis em cada dez reais investidos na área, correspondem ao encarceramento de pessoas negras.

Para chegar ao cálculo, a organização cruzou os gastos estaduais com dados do Sistema Nacional de Informações Penais (Sisdepen), de dezembro de 2025.

Luciana Zaffalon afirmou que os investimentos no sistema prisional permanecem concentrados na expansão da estrutura carcerária, enquanto houve redução de despesas relacionadas diretamente às condições de encarceramento, como alimentação e saúde.

“Os dados evidenciam uma realidade sistêmica: o Brasil prende muito e prende mal. A grande maioria das pessoas presas é pobre e preta, que acabam sendo entregues no sistema prisional às facções. Enquanto isso, os órgãos de segurança pública seguem com baixa capacidade de combater o crime organizado com eficiência”, afirmou.

Investimentos para egressos

Na chamada porta de saída do sistema prisional, os investimentos permaneceram praticamente estáveis. Os estados destinaram R$ 19 milhões a políticas exclusivas para egressos em 2025, contra R$ 18 milhões no ano anterior.

Essas políticas incluem ações de apoio ao acesso à documentação, moradia, saúde, educação, trabalho e renda, com o objetivo de reduzir barreiras para a reconstrução da vida após o cumprimento da pena.

Apenas sete unidades federativas registraram investimentos exclusivos para egressos em 2025, uma a mais que no ano anterior. Rio Grande do Sul e Santa Catarina passaram a investir na área, com R$ 414 mil e R$ 177 mil, respectivamente.

São Paulo concentrou a maior parcela dos recursos identificados pelo levantamento, com R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso destinou R$ 781 mil; Bahia, R$ 482 mil; e Sergipe, R$ 19 mil.

Tocantins, que havia registrado investimento na área em 2024, chegou a aprovar recursos na Lei Orçamentária Anual, mas não utilizou a verba em políticas para egressos em 2025.