quinta-feira, 20 de agosto de 2026 13:13
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Pesquisa aponta que 81% dos brasileiros consideram importante candidato acreditar em Deus

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Levantamento da UFF mostra ainda que 54% defendem um Estado não laico e identifica diferenças na percepção religiosa conforme renda; especialistas analisam relação entre religião, política e valores

Oito em cada dez brasileiros e brasileiras (81%) afirmam considerar fundamental que seus candidatos nas eleições acreditem em Deus. O percentual é maior entre pessoas de menor renda: entre aqueles que recebem até um salário mínimo, 89% têm essa percepção. Já entre os que ganham de 10 a 20 salários mínimos, o índice cai para 57%.

Os dados fazem parte de um levantamento inédito do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF). A pesquisa foi apresentada nesta quarta-feira (19), durante a abertura do 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade: religião, política e valores, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A pesquisa também mostra a forte presença da figura do Deus cristão entre os entrevistados, especialmente nos estratos de menor renda. Segundo o levantamento, 74% concordam que Deus torna as pessoas melhores. Entre quem recebe até um salário mínimo, o percentual chega a 86%. Além disso, 82% defendem que as escolas devem ensinar crianças e adolescentes a acreditar em Deus.

Apesar dessa valorização, a percepção não se traduz necessariamente em maior confiança nas instituições religiosas. Segundo a socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF, 56% dos entrevistados afirmaram confiar na Igreja Católica, que aparece como a instituição religiosa com maior credibilidade. Na sequência estão as igrejas protestantes, com 51%, e os centros kardecistas, com 19%.

Estado laico

O levantamento também identificou uma percepção significativa sobre a relação entre religião e Estado. Metade dos entrevistados, 54%, afirmou ser favorável a que o Estado brasileiro não seja laico.

Christina Vital avaliou que parte dessa percepção está relacionada à falta de clareza sobre o significado da laicidade. Segundo a pesquisadora, quando questionadas sobre o tema, as pessoas apresentam interpretações diferentes, muitas delas sem relação direta com o princípio de separação entre religião e Estado.

Religião e política

Para Michel Gherman, coordenador do Observatório das Crises das Democracias das Américas, da UFRJ, os resultados ajudam a compreender como setores da extrema direita passaram a utilizar determinadas percepções religiosas em seus discursos políticos.

O pesquisador citou como exemplo a crença, entre sete em cada dez candidatos a cargos políticos no Rio de Janeiro, de que existiria uma conspiração progressista voltada à degeneração moral das pessoas por meio das escolas.

Na avaliação de Gherman, determinadas concepções religiosas podem alimentar a percepção de que existem forças ocultas responsáveis por mudanças sociais, discurso que, segundo ele, pode ser incorporado por grupos políticos.

Christina Vital também apontou a existência de uma percepção de perda de determinados valores considerados presentes no passado. Segundo ela, essa visão atravessa diferentes grupos sociais, independentemente de renda, gênero ou cor da pele, embora possa assumir diferentes interpretações políticas.

O cientista político Lucio Rennó, da Universidade de Brasília (UnB), destacou ainda a existência de uma relação estatística entre ser evangélico e votar em candidatos de extrema direita. Segundo ele, essa associação pode estar ligada à identificação entre eleitores e candidatos que compartilham determinadas características e valores.