sexta-feira, 12 de junho de 2026 16:16
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Pesquisa inédita do GDF busca entender motivações de feminicidas e reforçar combate à violência contra a mulher

“A maioria das pesquisas sobre violência às nossas mulheres não são feitas por órgãos públicos, são feitas por ONGs e entidades, mas a institucionalização de pesquisas públicas dá um caminho, um rumo do que que está acontecendo e como enfrentar esse desafio", disse a governadora Celina Leão | Fotos: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

 

 

Levantamento ouviu mais de 5 mil pessoas e 39 autores de feminicídio presos na Papuda; estudo será institucionalizado e realizado a cada dois anos

 

 

Brasília – Com o objetivo de compreender as causas da violência contra a mulher e aperfeiçoar políticas públicas de prevenção e proteção, o Governo do Distrito Federal (GDF) apresentou nesta sexta-feira (12) a pesquisa inédita Panorama da Violência contra a Mulher no DF. O estudo, considerado o primeiro do gênero realizado por um ente federativo no país, ouviu mais de 5 mil pessoas e entrevistou 39 homens presos por feminicídio no Complexo da Papuda.

Durante a apresentação dos resultados, a governadora Celina Leão anunciou a assinatura de um decreto que institucionaliza a pesquisa, garantindo sua realização a cada dois anos.

Segundo a chefe do Executivo local, o levantamento representa um marco para a formulação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero.

“A institucionalização de pesquisas públicas dá um caminho e um rumo sobre o que está acontecendo e como enfrentar esse desafio. É inovador porque é a primeira pesquisa pública feita por um ente federativo que se debruçou sobre esse tema”, afirmou.

A governadora destacou ainda que uma das principais motivações para a realização do estudo foi compreender as razões que levam homens a cometer feminicídios. “A pergunta central era: por que os homens nos matam? Entender a violência contra as mulheres é um passo importante para combatê-la, mas agir diante dessa realidade é ainda mais fundamental”, ressaltou.

O levantamento foi desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) em parceria com a Secretaria da Mulher do Distrito Federal e a Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal.

De acordo com o presidente do IPEDF, Manoel Clementino, a pesquisa teve dois objetivos centrais: medir as diversas formas de violência contra a mulher no Distrito Federal e compreender as motivações dos autores de feminicídio contra parceiras íntimas.

“Tivemos autorização judicial para acessar os presos e realizar entrevistas em profundidade. Foi uma experiência inédita para a instituição e fundamental para entendermos melhor os fatores que contribuem para esses crimes”, explicou.

Masculinidade, controle e escalada da violência

As entrevistas realizadas com os autores de feminicídio revelaram que os crimes não decorrem de uma única causa, mas estão associados a trajetórias marcadas por padrões de masculinidade ligados ao controle, à autoridade e à dificuldade de lidar com conflitos.

Os pesquisadores identificaram comportamentos recorrentes anteriores ao feminicídio, como monitoramento de celulares, ameaças, agressões físicas e uso de armas, demonstrando um processo gradual de escalada da violência.

Para o secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, os resultados refletem uma realidade enfrentada diariamente pelas forças de segurança.

“Em muitos períodos do dia, recebemos chamados de violência doméstica a cada 10 ou 15 minutos. A pesquisa mostra que os números não estão fora da realidade. Pelo contrário, ainda são subnotificados, porque muitas mulheres deixam de denunciar por medo”, afirmou.

Segundo Patury, compreender as motivações dos agressores é essencial para interromper o ciclo da violência. Ele também destacou que fatores patrimoniais e relações de poder aparecem com frequência nos casos analisados.

Números revelam dimensão do problema

A pesquisa foi realizada em duas etapas. Na primeira, 5.093 pessoas foram entrevistadas em 80 pontos de grande circulação em todas as regiões administrativas do Distrito Federal. Na segunda, foram conduzidas entrevistas aprofundadas com 39 dos 50 homens presos por feminicídio no Complexo da Papuda.

Entre os principais resultados, 77,6% das mulheres afirmaram já ter vivido alguma forma de violência ao longo da vida. Além disso, 44,8% reconhecem ter sido vítimas e, entre essas, 15,4% ainda mantêm relacionamento com o agressor.

O estudo aponta ainda que a dependência financeira figura entre os principais fatores associados à violência praticada por parceiros íntimos.

Outro dado preocupante é a dificuldade de identificação de determinadas formas de violência. Quase metade dos entrevistados (49,4%) não considera que impedir uma mulher de acessar seu próprio dinheiro seja sempre uma forma de violência.

Apenas 33,8% das mulheres e 19,7% dos homens conseguiram identificar corretamente todas as situações de violência apresentadas durante a pesquisa.

O levantamento também revelou a persistência de estereótipos de gênero. Entre os entrevistados, 35,4% concordaram com a afirmação de que “toda mulher é um pouco histérica”; 34,9% concordaram que “mulher é o sexo frágil”; e 33,3% afirmaram acreditar que “tem mulher que é para casar e mulher que é para cama”.

Rede de proteção ampliada

Durante o evento, o GDF apresentou um balanço das ações voltadas à proteção das mulheres desde 2019. Entre os avanços destacados estão a criação da Secretaria da Mulher, a inauguração da Casa da Mulher Brasileira em Ceilândia, a implementação da Força-Tarefa de Combate ao Feminicídio, a criação do programa Acolher Eles e Elas e a expansão dos centros de referência para atendimento às vítimas.

Segundo o governo, a rede de proteção passou de 14 para 31 unidades de atendimento, com a implantação de 17 novos equipamentos públicos.

Somente em 2025, mais de 70 mil atendimentos diretos foram realizados pela Secretaria da Mulher, alcançando mais de 100 mil mulheres por meio de programas e ações, com investimentos superiores a R$ 86 milhões.

A expectativa do governo é que a nova pesquisa, agora institucionalizada, se torne uma ferramenta permanente para monitorar a evolução da violência de gênero no Distrito Federal e orientar políticas públicas mais eficazes de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres.