Fiocruz obtém patente nos EUA para método promissor contra malária resistente

© Rodrigo Méxas/Fiocruz

 

Tecnologia utiliza composto capaz de combater cepas resistentes do parasita causador das formas mais graves da doença

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conquistou uma patente internacional para um método de tratamento considerado promissor no combate à malária, especialmente em casos resistentes aos medicamentos tradicionais. A patente foi concedida pelo órgão norte-americano United States Patent and Trademark Office (USPTO) e envolve pesquisadores do Instituto René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas Gerais.

O método utiliza um composto conhecido como DAQ, que demonstrou capacidade de atuar contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, responsável pelas formas mais graves da doença. Segundo os pesquisadores, o diferencial da substância está na capacidade de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo próprio parasita.

Embora o DAQ não seja uma molécula inédita — sua atividade antimalárica já havia sido descrita na década de 1960 — o grupo coordenado pela pesquisadora Antoniana Krettli retomou os estudos utilizando técnicas mais modernas da química e da biologia molecular.

De acordo com o pesquisador colaborador da Fiocruz, Wilian Cortopassi, os estudos identificaram uma característica estrutural decisiva para a eficácia do composto: a presença de uma ligação tripla na cadeia química, capaz de neutralizar mecanismos de defesa desenvolvidos pelo parasita.

O DAQ atua de maneira semelhante à Cloroquina, interferindo em um processo essencial para a sobrevivência do microrganismo. Durante a digestão da hemoglobina humana, o parasita produz substâncias tóxicas que normalmente consegue neutralizar. O composto bloqueia esse mecanismo de proteção, provocando a morte do agente infeccioso.

Os testes também apontaram ação rápida do composto nas fases iniciais da infecção e eficácia tanto contra cepas sensíveis quanto resistentes do Plasmodium falciparum. Os pesquisadores identificaram ainda resultados positivos contra o Plasmodium vivax, responsável pela maior parte dos casos registrados no Brasil.

Outro ponto destacado pela equipe científica é o baixo custo potencial da molécula, fator considerado estratégico para países de baixa e média renda, onde a malária segue como problema endêmico.

As pesquisas foram realizadas em parceria com instituições nacionais e internacionais, entre elas a University of California San Francisco (UCSF), a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Novos estudos continuam sendo desenvolvidos em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores ressaltam que o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda exige novas etapas, como testes de toxicidade, definição de doses seguras e desenvolvimento da formulação farmacêutica adequada.

Concedida em março deste ano, a patente tem validade até setembro de 2041. Para Antoniana Krettli, a estrutura da Fiocruz poderá contribuir para acelerar as próximas fases do desenvolvimento do tratamento, especialmente pela atuação da instituição na Amazônia, região onde a malária permanece presente.

Os cientistas alertam ainda que, embora existam tratamentos eficazes atualmente, o parasita continua evoluindo e desenvolvendo resistência aos medicamentos disponíveis. Por isso, defendem que o desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas seja realizado desde já para evitar futuras limitações no combate à doença.