Lula defende união do Sul Global para mudar lógica econômica mundial

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Presidente afirma que países em desenvolvimento precisam atuar juntos para ganhar força nas negociações e reforça papel do Brics e da ONU durante visita à Ásia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, na madrugada deste domingo (22), a união dos países em desenvolvimento — especialmente os do chamado Sul Global — como estratégia para “mudar a lógica econômica” do mundo. A declaração foi feita pouco antes de encerrar sua visita à Índia e embarcar para a Coreia do Sul.

Em coletiva de imprensa, Lula destacou as dificuldades históricas enfrentadas por nações menos desenvolvidas nas negociações com superpotências. Segundo ele, a saída está na articulação conjunta.

“Sempre defendemos que países pequenos se unam para negociar com os maiores. Países como Índia, Brasil, Austrália e outros do Sul Global precisam estar juntos, porque na negociação direta com superpotências a tendência é perder”, afirmou.

O presidente argumentou que os países em desenvolvimento têm potencial para alterar o atual modelo econômico global. “Está na hora de mudar. Falo isso com base em 500 anos de experiência colonial, porque continuamos colonizados do ponto de vista tecnológico e econômico. Precisamos construir parcerias com quem tem similaridades conosco”, acrescentou.

Brics e nova dinâmica global

Na avaliação de Lula, o BRICS tem colaborado para viabilizar uma nova dinâmica econômica internacional. Segundo ele, o grupo “está ganhando uma cara” e deixando de ser marginalizado.

O presidente destacou a criação do banco do bloco e afirmou que o grupo pode ampliar sua influência, integrando-se ao G20 e até formando algo equivalente a um G30. Lula negou, no entanto, que haja intenção de criar uma moeda própria do Brics.

“Nunca defendemos criar uma moeda dos BRICS. O que defendemos é fazer comércio com nossas próprias moedas, para reduzir dependências e custos”, explicou, reconhecendo que os Estados Unidos podem reagir com preocupação, mas defendendo o debate.

Defesa do multilateralismo e fortalecimento da ONU

Lula também voltou a defender o multilateralismo e o fortalecimento da Organização das Nações Unidas (ONU), que, segundo ele, precisa recuperar legitimidade e eficácia.

O presidente afirmou ter conversado recentemente com diversos chefes de Estado para discutir respostas a crises internacionais, citando situações na Venezuela, em Gaza e na Ucrânia. Para ele, nenhum país deve interferir unilateralmente na soberania de outro.

“Precisamos da ONU para resolver esse tipo de problema. E, por isso, ela precisa ter representatividade”, reiterou.

Relação com os EUA e diálogo com Trump

Ao comentar a relação entre Brasil e Estados Unidos, Lula afirmou que o país está aberto a parcerias, especialmente no combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional.

Segundo ele, a Polícia Federal brasileira deve ampliar cooperações internacionais, inclusive com os EUA, caso haja disposição concreta de enfrentar essas organizações. Lula também defendeu que a relação da superpotência com a América do Sul e o Caribe seja baseada no respeito.

O presidente disse que pretende discutir o papel dos Estados Unidos na região em um encontro previsto com o presidente Donald Trump. “Quero discutir qual é o papel dos EUA na América do Sul, se é de ajuda ou ameaça”, afirmou.

Relação com a Índia e metas comerciais

Durante a visita à Índia, Lula se reuniu com o primeiro-ministro Narendra Modi. Segundo o presidente brasileiro, o foco do encontro foi o fortalecimento das relações comerciais e econômicas entre os dois países.

O comércio bilateral, atualmente em US$ 15,5 bilhões, tem como meta atingir US$ 30 bilhões até 2030. Lula classificou a conversa como “extraordinária” e destacou o otimismo de empresários indianos que já investem no Brasil.

Ele também reafirmou que o Brasil está aberto à exploração de minerais críticos e terras raras por parceiros estrangeiros, desde que o processo de transformação industrial ocorra em território nacional. “O que não vamos permitir é que aconteça com nossas terras raras o que aconteceu com nosso minério de ferro”, declarou.

Próxima etapa: Coreia do Sul

Lula embarcou para a Ásia na última terça-feira (17) com agendas voltadas ao fortalecimento do comércio e de parcerias estratégicas. Após a passagem por Nova Delhi, neste domingo (22), o presidente e sua comitiva desembarcam em Seul, na Coreia do Sul, a convite do presidente Lee Jae Myung.

A visita resultará na adoção do Plano de Ação Trienal 2026-2029, que pretende elevar o relacionamento entre os dois países ao nível de parceria estratégica. Esta é a terceira viagem de Lula à Coreia do Sul e a primeira com статус de visita de Estado.