
Iniciativa alia melhoramento genético e diversidade para recuperar 1 mil hectares e fortalecer florestas contra mudanças climáticas
Uma iniciativa de restauração da Mata Atlântica, na Bahia, tem apresentado resultados expressivos ao reduzir em até 50% o tempo de crescimento de espécies nativas e recriar florestas produtivas mais resilientes às mudanças climáticas. O trabalho é conduzido pela empresa Symbiosis e integra uma estratégia de recuperação ambiental iniciada em 2014.
De acordo com a supervisora de melhoramento genético, pesquisa e desenvolvimento da empresa, Laura Guimarães, o projeto começou com a coleta e o mapeamento de indivíduos com maior potencial de conservação dentro de cada espécie estudada. A partir dessa seleção genética, foi possível recuperar 1 mil hectares do bioma com o plantio de 45 espécies nativas, entre elas jacarandá, jequitibá, ipês e angicos.
Segundo o gerente do viveiro de mudas da Symbiosis, Mickael Mello, muitas das matrizes escolhidas são centenárias e sobreviveram ao histórico processo de exploração da Mata Atlântica. “Carregam uma genética extremamente adaptada”, afirma.
Além da escolha criteriosa das árvores, o projeto estruturou as novas florestas para garantir variabilidade genética e evitar a homogeneização, fator que pode fragilizar os ecossistemas. “Ao identificar e selecionar indivíduos mais adaptados e resilientes, favorece-se a recuperação de populações mais estáveis e preparadas para enfrentar desafios ambientais”, explicou Laura.
Fragmentação e impactos
Originalmente, a Mata Atlântica cobria cerca de 130 milhões de hectares do território brasileiro. Hoje, restam aproximadamente 24% dessa cobertura, sendo apenas 12,4% de florestas maduras e bem preservadas, distribuídas em fragmentos por 17 estados.
Para o gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, Rafael Bitante Fernandes, a fragmentação reduz a variabilidade genética e compromete a capacidade adaptativa das espécies. “Essas populações tornam-se mais suscetíveis a eventos como déficit hídrico e mudanças climáticas, podendo entrar em declínio progressivo”, avalia.
Ele destaca que a perda de diversidade impacta diretamente a vida das pessoas, ao reduzir serviços ecossistêmicos como disponibilidade de água, qualidade do ar, regulação do clima e controle de doenças.
Restauração como investimento
Segundo Fernandes, o declínio do bioma e os riscos econômicos associados têm levado empresas privadas a enxergar a restauração florestal como oportunidade de negócio, e não apenas como ação filantrópica. Modelos atuais permitem manejo sustentável, com exploração controlada de produtos madeireiros e não madeireiros, como óleos e essências, sem corte raso da floresta e mantendo o sequestro de carbono.
O movimento integra o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, criado em 2009, que estabeleceu a meta de recuperar 15 milhões de hectares até 2050. A restauração, segundo o especialista, é uma ação intencional, planejada para estimular o retorno da vegetação nativa.
Estudo liderado pelo professor Paulo Molin, citado pela fundação, identificou que entre 1993 e 2022 cerca de 4,9 milhões de hectares entraram em regeneração natural, mas 1,1 milhão voltou a ser desmatado no mesmo período.
Desafios e potencial social
Apesar dos avanços, o desafio é ampliar a escala das iniciativas, especialmente porque 90% do território da Mata Atlântica está em áreas privadas. Fernandes defende políticas públicas mais robustas, como pagamento por serviços ambientais e incentivos à preservação.
O esforço pode gerar retorno social significativo. “A cada dois campos de futebol restaurados, é possível criar um emprego”, afirma. Dentro da meta de 15 milhões de hectares, o impacto econômico e social pode ser expressivo, consolidando a Mata Atlântica como referência global em restauração ambiental.









