Zé Vaqueiro: ele cantava nas vaquejadas, mas fez sucesso com o piseiro - (crédito: @oficialpikachu/Reprodução)

 

O piseiro conquistou o Brasil e está levando a cultura do Nordeste para todos os cantos do país. Conheça alguns dos artistas responsáveis por essa febre

 

Há alguns anos, o sertanejo vem sendo o gênero musical dominante entre as canções mais tocadas no Brasil. Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Henrique & Juliano e Zé Neto & Cristiano são alguns dos artistas que vinham comandando a famigerada sofrência, estado de espírito transposto em música que é uma paixão nacional. No entanto, desde o ano passado, outros gêneros começaram a despontar entre as mais tocadas no país. Em maio de 2021, a parada semanal do Youtube registrou, pela primeira vez, a ausência total de sertanejos no top três, algo que nunca havia acontecido desde a criação do ranking, em 2018.

Além do funk, o sertanejo também está dividindo o espaço no topo com o piseiro, que virou febre de norte a sul do país. Zé Vaqueiro, João Gomes, Priscila Senna e Tarcísio do Acordeon são alguns dos nomes que se tornaram amplamente conhecidos pelo público, entregando canções que alternam a sofrência, diversão e o dia a dia da realidade do interior do Nordeste.

O alagoano Vitinho Imperador é um dos nomes que desponta no piseiro. O seu hit Volta rapariga, que o apresentou para o Brasil, já acumula mais de 100 milhões de plays nas plataformas digitais. Para ele, o ritmo da pisadinha contagiou o Brasil porque é “envolvente, cativante, com a linguagem do nosso povo.”
Com letras irreverentes, que falam de traição, de maneira leve e divertida, ele conta ter como inspiração musical desde clássicos do cancioneiro nordestino, como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, até nomes importantes da atualidade, como Xand Avião e os sertanejos Jorge & Mateus e Henrique & Juliano. “Jamais seremos concorrentes, ambos os estilos e artistas enriquecem essa cultura gigante do nosso Brasil”, diz ao ser perguntado sobre uma suposta concorrência entre o piseiro e o sertanejo.

O compositor lançou, semana passada, um EP com quatro canções inéditas, entre elas, o cômico e dançante Salete, que fala de traição. “Te dei tudo,/você ainda me traiu./Casa, comida pagos com traição./ Estou bebendo arrastando/o chifre no chão”, diz a letra. “Falo dessas situações de forma engraçada porque atinge a todos.Quem nunca foi traído ou sofreu por amor? Vamos dançar e rir juntos disso”, convoca o cantor de apenas 20 anos.

Forró

O piseiro é mais um capítulo das transformações que o forró tem passado nas últimas décadas. A incorporação de elementos eletrônicos ao gênero que começou na base da sanfona, do triângulo e da zabumba não é algo inédito. Desde os anos 2000, bandas como Calcinha Preta, Aviões do Forró e Garota Safada já usavam esse artifício para conquistar o público, sobretudo do Nordeste. Mas, afinal, o que é eterno no forró, que é preservado desde Gonzagão até a pisadinha da atualidade?

“A energia, a história, o modo que falamos de amor, a essência do povo nordestino, que é um povo que luta, que corre atrás, são as coisas que não podem ser perdidas no forró”, define Zé Vaqueiro, dono do hit Letícia, que soma mais de 273 milhões de views no Youtube. Dono de uma voz potente, o forrozeiro lançou o álbum O original, que apresentou ao público sucessos como Tenho medo e Cangote. “Piseiro é o forró. A forma que a música é cantada, dançante e a energia são os motivos pelos quais o piseiro está no topo das plataformas digitais”, analisa o cantor.

Com 22 anos e natural de Ouricuri, no sertão de Pernambuco, Zé Vaqueiro conta com mais 1 bilhão de visualizações no Youtube, mais de 7 milhões de ouvintes mensais no Spotify e 6,6 milhões de seguidores no Instagram. Zé já cantava em vaquejadas no interior do Nordeste, bem antes do sucesso Letícia estourar. Neste ano, lançou o EP Vibe original, com seis músicas inéditas, como Cadê o amor e Você conta ou eu conto, além de canções autorais como Queda de moto e A recaída.

Redes

Outro símbolo do piseiro e do forró de vaquejada é o pernambucano João Gomes, que conquistou fãs por todo o território nacional com letras envolventes como Meu pedaço de pecado, Eu tenho a senha e Aquelas coisas. “As plataformas digitais, hoje em dia, dão mais facilidade para os artistas nordestinos. Por aqui, sempre tocaram essas músicas e muitos artistas fizeram sucesso. As plataformas ajudam o nosso trabalho a chegar a lugares que a gente nem imaginaria”, afirma o cantor de 19 anos, cujo sucesso reforça a importância das redes sociais. Quem navegou pelo Tik Tok nos últimos meses com certeza deve ter assistido a vários vídeos com músicas do jovem compositor.

O seu primeiro álbum Eu tenho a senha debutou com sucesso no Spotify, com letras que o brasileiro sabe de cor. Na plataforma, Gomes tem mais de 7,8 milhões de ouvintes mensais. Mas se engana quem pensa que a inspiração do cantor se restringe aos gêneros tradicionais do Nordeste. João Gomes já declarou ser fã de rap, de MCs como BK, Lennon, Orochi e Matuê. Em seu principal hit, Meu pedaço de pecado, apresenta versos acelerados com a pegada hip hop.

Fora os rappers já citados, João Gomes também diz se inspirar em Cartola e Belchior. “Sempre trago eles dois pelo estilo de escrever e pelo que eles transmitem. O que me inspira no forró e na vaquejada é a alegria. Porque eu sei que o público nordestino é um povo que sai para a luta todo santo dia. Quando vai a uma festa, escutar música, é um dia de se aliviar, esquecer os estresses, os problemas. É por isso que eu canto.”

 

Com informações do Correio Braziliense