Prevent Senior obrigava médicos a receitar remédio capaz de provocar hepatite fulminante

 

 

Empresa nega ter coagido profissionais a ministrar medicamentos

 

Médicos que trabalharam na linha de frente da Covid-19 na Prevent Senior, uma das maiores operadoras de saúde do país, relatam uma rotina de pressão e assédio constantes para prescrever medicações que eles sabem que não funcionam e que podem agravar o quadro dos pacientes: o “kit covid”, com cloroquina, azitromicina, ivermectina e a flutamida, indicada apenas para câncer de próstata.

A reportagem da Globonews conversou com cinco médicos que trabalharam na operadora. Com medo de represálias, três deles deram entrevistas sem se identificar e contaram como é o cotidiano nas unidades do plano. Dois afirmam que tiveram que fazer plantões nos hospitais da Prevent quando estavam infectados com o novo coronavírus.

A Globonews teve acesso a conversas em aplicativos de mensagens de grupos da Prevent que confirmam o relato dos profissionais. Em um dos diálogos, um diretor da empresa orienta os subordinados a medicar todos os pacientes com problemas respiratórios com hidroxicloroquina e azitromicina sem avisá-los disso, apesar de serem medicamentos sem indicação para Covid-19.

A reportagem também obteve prontuários médicos e outros documentos que mostram que práticas vetadas pelo Conselho Federal de Medicina, como a ozonioterapia. A Prevent Senior disse à GloboNews que jamais coagiu funcionários (leia nota abaixo).

Conversa mostra orientação de prescrever Flutamida para todos os pacientes — Foto: Reprodução

Conversa mostra orientação de prescrever Flutamida para todos os pacientes — Foto: Reprodução

Flutamida

No dia 24 de março, o Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação para apurar a prescrição de medicamentos não-indicados na rede Prevent Senior. Isso aconteceu após a Globonews mostrar que a operadora está fazendo uma distribuição indiscriminada.

No mesmo dia a Promotoria recebeu uma denúncia anônima de que “os médicos da direção da empresa estão solicitando a prescrição obrigatória para todos os pacientes internados com Covid-19 de medicações não comprovadas cientificamente” e cita a “flutamida” e o “etanercepte’.

Em seguida, o denunciante diz que “a Prevent Senior está induzindo seus médicos a prescreverem as medicações citadas sem consentimento livre e esclarecido dos familiares dos pacientes, sem estar enquadrado em nenhum estudo científico e sem protocolo institucional.”

O etanercepte é um remédio para artrite e psoríase. A flutamida é um inibidor de hormônios masculinos, usado exclusivamente no tratamento do câncer de próstata.

Não há indicação da Anvisa para tratar pacientes com Covid, nem qualquer estudo científico publicado sobre a eventual eficácia desses medicamentos para o novo coronavírus. Os riscos também são desconhecidos.

A representação ao MP foi acompanhada de fotos de uma conversa em um grupo de médicos da Prevent. Um diretor da operadora escreve. “Bom plantão a todos e enfatizo a importância da prescrição da Flutamida 250 mg de 8 em 8 horas para todos os pacientes que internarem”.

A flutamida era comercializada para o tratamento de acne até 2004. Naquele ano, a Anvisa emitiu um alerta para que o remédio não fosse utilizado para nenhuma finalidade que não fosse o tratamento de câncer de próstata depois que quatro mulheres morreram de hepatite fulminante fazendo o uso da flutamida.

Na bula da flutamida, o fabricante diz que o remédio não deve ser usado por mulheres e que a única indicação é para tratar câncer na próstata.

Mensagem pelo Whatsapp mostra que Prevent Senior pedia para não informarem familiares sobre o uso do 'kit Covid' — Foto: Reprodução

Mensagem pelo Whatsapp mostra que Prevent Senior pedia para não informarem familiares sobre o uso do ‘kit Covid’ — Foto: Reprodução

Kit Covid prescrito

O CFM diz que os médicos têm autonomia para prescrever o remédio que achar adequado ao paciente, mas, segundo esses médicos, não é o que acontece na Prevent Senior. Um deles foi demitido depois de se recusar a dar essas medicações.

“Eu deixei de prescrever por um único dia acreditando nisso e acabei sendo chamado à diretoria com orientações bem claras de que eu deveria prescrever a medicação e o que ficava implícito era que se não prescrevesse a medicação você estaria fora do hospital. Voltei a prescrever a medicação por ter sido obrigado a prescrever. A autonomia, na verdade, é zero, você não tem escolha de deixar de prescrever. Se você não prescreve, você vai ser demitido”, afirma um deles.

Uma segunda médica fala que a prescrição do “kit covid” é uma orientação padrão para todos os pacientes. “Ao menor sinal de síndrome gripal, a orientação era que prescrevesse. Se o paciente teve uma coriza, você tinha que prescrever o kit. Bastava ter um único dia de evolução, algumas horas de evolução, paciente chegou, descreveu os sintomas, você tinha que entregar o kit. Eles contabilizavam o número de kits.”

Numa conversa de março do ano passado, um diretor da empresa anuncia o início do protocolo com “hidroxicloroquina e azitromicina”. E orienta os médicos a “não informar o paciente ou familiar sobre a medicação e nem sobre o programa”, ou seja, a dar a medicação de forma escondida.

Essa terceira médica pediu demissão por não concordar com essas práticas.

“Todo plantão que eu ia lá sempre tem alguém que dizia, ‘olha, eu tenho que prescrever, qualquer sintoma gripal eu tenho que passar para o paciente. Então, não tem escolha, não. É diário mesmo. Então se tinha um paciente internado, aí eu deixava uma prescrição, aí vinha alguém de cima e falava ‘não, faltou tal coisa’. Ia lá, mexia na minha prescrição e colocava outra. Então isso chegou a acontecer. E aí eu acabo não exercendo aquilo que eu estudei.”

Em outra mensagem, de maio de 2020, outro diretor mostra um gráfico indicando queda na distribuição dos kits e cobra a equipe. “Não podemos perder o foco, voltamos a ter rendimentos ruins, não podemos perder o tônus”.

O monitoramento das entregas de kits é diário. Outra mensagem com a mesma orientação foi enviada no dia 15 de novembro por Whatsapp.

Dois dos médicos que entrevistamos disseram que foram obrigados a dar plantões mesmo estando infectados com o novo coronavirus. Um deles enviou o resultado do teste e a escala de plantões nos dias seguintes, comprovando que ele trabalhou mesmo infectado.

O médico trabalhou ao menos cinco dias infectado com a doença e atendendo pacientes. “Um deles enviou o resultado do teste e a escala de plantões, provando que trabalhou com a doença. Nós cobrimos as datas para que ele não seja identificado.”

O médico apresentou à reportagem um exame e a escala de plantões dele, comprovando que ele trabalhou infectado.

Ozonioterapia indevida

A reportagem ainda teve acesso a dois prontuários médicos de pacientes que foram internados na Prevent Senior, receberam todas as medicações do kit covid e acabaram morrendo.

Um dos pacientes foi submetido a uma sessão de ozonioterapia, prática que é proibida pelo CFM. A resolução do órgão diz que a ozonioterapia só pode ser feita “de acordo com as normas do sistema CEP/Conep”, que são os Comitês de Ética em Pesquisa que autorizam experimentações em humanos. A prática só é permitida em instituições credenciadas, o que não é o caso da Prevent Senior.

Segundo o Conep, não há aprovação de ensaio clínico que autorize a prática de ozonioterapia para a Prevent. A instituição não é credenciada para esse tipo de tratamento experimental, de acordo com o órgão.

O coordenador da Conep, Jorge Venâncio, afirmou que iniciar uma pesquisa sem ter autorização é uma “irregularidade grosseira”. “Nesses casos de pesquisa não autorizada a responsabilidade por qualquer dano que exista ao participante é exclusivamente dos pesquisadores da instituição que tiver fazendo a pesquisa.”

No dia 24 de março, o Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação para apurar a prescrição de medicamentos não-indicados na rede Prevent Senior. Isso aconteceu após a Globonews mostrar que a operadora está fazendo uma distribuição indiscriminada.

No mesmo dia a Promotoria recebeu uma denúncia anônima de que “os médicos da direção da empresa estão solicitando a prescrição obrigatória para todos os pacientes internados com Covid-19 de medicações não comprovadas cientificamente” e cita a “flutamida” e o “etanercepte”.

Em seguida, o denunciante diz que “a Prevent Senior está induzindo seus médicos a prescreverem as medicações citadas sem consentimento livre e esclarecido dos familiares dos pacientes, sem estar enquadrado em nenhum estudo científico e sem protocolo institucional.”

O etanercepte é um remédio para artrite e psoríase. A flutamida é um inibidor de hormônios masculinos, usado exclusivamente no tratamento do câncer de próstata.

Não há indicação da Anvisa para tratar pacientes com Covid, nem qualquer estudo científico publicado sobre a eventual eficácia desses medicamentos para o novo coronavírus. Os riscos também são desconhecidos.

A representação ao MP foi acompanhada de fotos de uma conversa em um grupo de médicos da Prevent. Um diretor da operadora escreve. “Bom plantão a todos e enfatizo a importância da prescrição da Flutamida 250 mg de 8 em 8 horas para todos os pacientes que internarem”.

A flutamida era comercializada para o tratamento de acne até 2004. Naquele ano, a Anvisa emitiu um alerta para que o remédio não fosse utilizado para nenhuma finalidade que não fosse o tratamento de câncer de próstata depois que quatro mulheres morreram de hepatite fulminante fazendo o uso da flutamida.

Na bula da flutamida, o fabricante diz que o remédio não deve ser usado por mulheres e que a única indicação é para tratar câncer na próstata.

Outro lado

Em nota, a Prevent Senior afirmou que “jamais coagiu médicos a trabalhar doentes” e que respeita a autonomia de seus profissionais.

“A Prevent Senior jamais coagiu médicos a trabalhar doentes, o que foi atestado recentemente por vistorias de conselhos de classe. Todos os profissionais prestadores de serviço afastados, aliás, continuaram a receber salários. Sobre os tratamentos, a empresa dá aos médicos a prerrogativa de adotar os procedimentos que julgarem necessários, com toda a segurança e eficiência e sempre de acordo com os marcos legais, notadamente seguindo as diretrizes do Conselho Federal de Medicina. Entretanto, como a Prevent Senior não teve acesso aos supostos documentos obtidos pela Globonews, não pode esclarecer detalhadamente os questionamentos”, diz a nota.